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Imagem: Adaptado de https: doi.org10.1016j.immuni.2025.08.004

Descoberta revela como neurônios moldam células imunes para regenerar nervos periféricos

Estudo internacional com participação do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias mostra como a comunicação entre neurônios e macrófagos orienta a recuperação de nervos lesionados

Quando um nervo periférico é lesionado — por acidentes, cirurgias ou doenças metabólicas como a diabetes — o corpo aciona rapidamente células de defesa para tentar reparar o dano. Ainda assim, a recuperação nem sempre ocorre como o esperado, e muitos pacientes evoluem com dor crônica, formigamento ou perda de sensibilidade.

Um estudo publicado recentemente na revista Immunity, conduzido por pesquisadores da Universidade de Freiburg (Alemanha) em colaboração com o Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, ajuda a explicar por que esses desfechos são tão variados. Neurônios sensoriais conseguem orientar macrófagos — células de defesa presentes nos tecidos — para que atuem como agentes especializados na regeneração dos nervos, utilizando para isso uma molécula-chave, o TGF-β.

A pesquisa contou com a participação de Conceição Elidianne Aníbal Silva, doutoranda do CRID, que realizou parte do trabalho no laboratório alemão e estabeleceu a parceria entre os grupos. Para Elidianne, os resultados representam “uma peça que faltava para entender por que alguns nervos conseguem se recuperar enquanto outros evoluem mal, levando a perda de sensibilidade, dor intensa ou incapacidade funcional”.

Como neurônios e células imunes se comunicam

O estudo descreve a existência de um tipo específico de macrófago — os sensory nerve-associated macrophages (sNAMs) — que vive junto aos nervos na pele, ajudando no cuidado e na proteção das fibras nervosas. Esses macrófagos têm origem embrionária e conseguem se autorrenovar ao longo da vida. Quando ocorre uma lesão, novos macrófagos vindos da circulação chegam ao local e, ao entrarem em contato direto com os neurônios, passam por um processo de especialização que os torna funcionalmente equivalentes aos sNAMs originais.

A peça central desse processo é o TGF-β, uma molécula que entra em ação somente quando neurônios e macrófagos se tocam fisicamente. A equipe mostrou que, quando essa via é bloqueada, os macrófagos deixam de atuar adequadamente nos nervos e a regeneração não acontece como deveria. O fenômeno também foi confirmado em humanos: em modelos derivados de células-tronco e em amostras de pele saudável, os pesquisadores observaram o mesmo mecanismo e identificaram células semelhantes, reforçando que o processo não se limita a modelos animais.

A relevância clínica é expressiva. Estima-se que 2% a 3% da população mundial conviva com neuropatias periféricas, condições que causam dor, formigamento, fraqueza ou perda de sensibilidade. Para Elidianne, a descoberta “ajuda a entender como a regeneração ocorre em condições normais e por que ela falha em doenças como a neuropatia diabética ou após traumas”.

Perspectivas para neuropatias, dor crônica e trauma

Os resultados revelam uma comunicação de mão dupla: neurônios instruem macrófagos via TGF-β, e macrófagos, por sua vez, favorecem o crescimento dos axônios lesionados. Esse mecanismo pode, no futuro, orientar novas estratégias terapêuticas voltadas a acelerar a recuperação de nervos e reduzir o risco de dor neuropática crônica. “Os dados mostram que, quando essa via funciona bem, há regeneração. Quando não funciona, o nervo não se recupera e até a cicatrização é prejudicada”, explica Elidianne.

Apesar do potencial, a equipe destaca que qualquer intervenção precisa ser pensada com cautela. O TGF-β participa de diversos processos no organismo — da inflamação ao controle do crescimento tumoral — e uma abordagem terapêutica só seria segura se extremamente localizada. Os caminhos translacionais incluem avaliar maneiras de manipular essa via em modelos experimentais, desenvolver métodos seguros de entrega e, posteriormente, avançar para estudos clínicos, em um processo que pode levar anos.

A colaboração entre os grupos continua. Na Alemanha, pesquisadores seguem investigando a biologia desses macrófagos especializados, enquanto o grupo brasileiro estuda como células imunes influenciam a dor crônica, tema relacionado diretamente ao mecanismo descrito. Há ainda indícios de que processos semelhantes ocorram em outros órgãos, como o intestino, o que abre novas perguntas sobre a atuação dos macrófagos em diferentes tecidos.

A médio prazo, o objetivo é entender em quais condições essa via é ativada ou comprometida e como isso afeta pacientes com neuropatias metabólicas, traumáticas ou cirúrgicas. “Ainda estamos diante de ciência básica, mas que ilumina possibilidades e levanta hipóteses importantes para o futuro”, afirma Elidianne.

Segundo o professor Thiago Mattar Cunha, pesquisador principal do CRID, o estudo reforça a missão do centro em compreender como sistemas nervoso e imune interagem nas doenças. “O CRID tem uma tradição forte em investigar como células imunes e neurônios se comunicam, especialmente em condições associadas à dor e inflamação. Este estudo mostra como essa colaboração permite compreender mecanismos que podem, no futuro, beneficiar pacientes com lesões nervosas e neuropatias”, destaca.


Eduardo Nazaré

Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP-USP