Novo espaço da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto investiga como diferentes sensações podem influenciar o corpo e a mente
Ao atravessar a porta do Laboratório de Pesquisa e Inovação em Estimulação Multissensorial (LABEM), na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o visitante deixa para trás a lógica tradicional dos corredores acadêmicos. O ambiente é distinto: luzes mudam de cor lentamente, aromas discretos se espalham pelo ar, vibrações podem ser sentidas ao toque, e sons suaves ou intensos preenchem o espaço. Tudo é planejado. Nada é casual. Ali, os sentidos se tornam ferramenta de investigação científica.
A ideia de criar o LABEM nasceu da necessidade de compreender, de forma sistemática, como diferentes estímulos sensoriais podem impactar o organismo e o comportamento humano. Coordenado pela professora Carla da Silva Santana Castro do Departamento de Ciências da Saúde — Divisão de Terapia Ocupacional — da FMRP, o laboratório é um dos primeiros do país a reunir, em um mesmo ambiente, recursos de iluminação, som, aromas, texturas e sabores em uma proposta de pesquisa estruturada.
“Ambientes multissensoriais são ricos em estímulos visuais, táteis, olfativos e auditivos. Quando combinados, podem trazer sensações de relaxamento, ativação e bem-estar. Nosso objetivo inicial é testar se diferentes combinações influenciam parâmetros como pressão arterial, frequência cardíaca, humor, volição e comportamento”, explica Carla.
O espaço foi organizado a partir da metodologia Snoezelen, difundida em diversos países para fins terapêuticos por meio das sensações. No LABEM, essa metodologia ganha contornos de pesquisa científica. Cada sessão é desenhada com base em protocolos que permitem mensurar os efeitos da estimulação e obter resultados de diferentes populações.
Entre relaxamento e ativação

O laboratório é dividido em dois ambientes principais. A sala de relaxamento privilegia estímulos suaves — cores tranquilas, músicas calmas, aromas delicados e texturas que favorecem a desaceleração. Já a sala de ativação trabalha no sentido inverso, com sons mais intensos, luzes vibrantes e recursos que incentivam a interação e o movimento.
Segundo Carla, essa alternância é essencial. “Não se trata apenas de provocar o bem-estar. O que buscamos é entender como o corpo responde a diferentes combinações. O mesmo estímulo que relaxa uma pessoa pode ativar outra, e isso é fundamental para pensarmos em aplicações clínicas não farmacológicas no futuro”, detalha a professora.
Durante as sessões de 30 minutos, os participantes têm seus dados monitorados. Smartwatches registram frequência cardíaca em tempo real, enquanto a equipe coleta pressão arterial antes e depois de cada experiência. Além disso, os pesquisadores observam comportamentos como nível de atenção, interação com o ambiente e sinais de tranquilidade ou agitação.
Primeiros atendimentos e perspectivas futuras

Neste momento, o foco está nos idosos, com e sem a doença de Alzheimer. A escolha não é por acaso: essa população frequentemente apresenta alterações de humor, dificuldades cognitivas e variações comportamentais que podem ser influenciadas pela estimulação sensorial.
“Estamos observando como cada idoso responde. Pessoas com Alzheimer, por exemplo, às vezes chegam agitadas e, após a sessão, apresentam sinais de calma. Em outros casos, em pessoas mais introspectivas ou apáticas, vemos mais interesse e interação”, relata Maria Eduarda Harumi Eizo, aluna do 4º ano do curso de Terapia Ocupacional da FMRP e participante da pesquisa.
Segundo a aluna, é possível observar como as diferentes combinações de estímulos pode afetar o humor e a percepção dos idosos. “Aqui nas salas conseguimos ver como os estímulos despertam reações distintas. Já tivemos situações em que a música e as luzes fizeram o participante se movimentar mais, enquanto em outros momentos o relaxamento trouxe uma serenidade difícil de alcançar em outros contextos”.
Embora o trabalho inicial esteja voltado às pessoas idosas, a equipe já vislumbra ampliar os atendimentos. A expectativa é incluir, futuramente, pessoas com depressão, ansiedade e transtorno do espectro autista, entre outras condições. “Sabemos que os estímulos podem beneficiar diferentes populações. Mas é preciso avançar com rigor científico, para que no futuro possamos propor intervenções não farmacológicas baseadas em evidências”, reforça Carla.
O LABEM nasce, portanto, como um espaço de experimentação e ciência, mas também como um projeto de futuro. “Nosso papel é gerar conhecimento, formar alunos e, mais adiante, pensar em ações de extensão. A ideia é que essa experiência não fique restrita à pesquisa, mas que possa, no futuro, contribuir para novas práticas de cuidado em saúde”, conclui a professora.
Eduardo Nazaré
Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP-USP






