Projeto dentro do HC garante aulas para crianças e adolescentes que estão internados

Jornal A Cidade - Micaela Lepera - 26/07/2014 – 20:18aulanohc2

“Pouca coisa é necessária para transformar inteiramente uma vida: amor no coração e sorriso nos lábios”. A frase do ativista político norte-americano Martin Luther King estampa a porta da sala da professora Dalva Trittoli, 62 anos, no HC (Hospital das Clínicas) de Ribeirão Preto. Ela e mais três pedagogas dão aulas para crianças e adolescentes, matriculadas no Ensino Fundamental, que se encontram hospitalizadas.

As “classes hospitalares” fazem parte do dia a dia de Júlia Leal Sani, 15 anos, há seis anos. A adolescente sofre de dismotilidade do trânsito intestinal – perda da função motora do intestino – e trata da doença no HC desde os 10 meses de idade.

Em 2008, Júlia passou por uma cirurgia e retirou um pedaço do intestino. Uma sonda foi colocada e a jovem passou a receber uma solução de nutrientes pela veia. De terça a sexta-feira, ela fica no hospital com a mãe, Adriana Leal Sani, 46 anos.

Júlia frequentou a escola regular em Bebedouro, a 80 km de Ribeirão, até o 5º ano. “Ela é muito inteligente e aplicada”, afirmou a professora Rejane Campos, 54 anos.

O caso de Júlia é atípico. Normalmente, o HC oferece aulas a alunos do Fundamental, mas, como a adolescente passa a maior parte da semana internada, o hospital decidiu dar continuidade aos estudos dela. “Se não tivesse esse trabalho, eu não sei o que ia acontecer”, disse a mãe, agradecida.

Se as classes hospitalares não existissem, provavelmente Júlia não estaria se preparando para o vestibular. Ela está no primeiro ano do Ensino Médio e quer fazer artes cênicas. “Eu já sou uma atriz em casa”, brincou.

Mas enquanto o vestibular não chega, Júlia estuda sociologia, matemática, biologia, português, história e geografia. “É bom, porque passa o tempo”, ressaltou.

Adriana lamenta, apenas, que Júlia não conviva com outros jovens da sua idade. “Ela sai com a irmã e os primos, mas não tem amigos da escola.”

Projeto já foi premiado duas vezes

O modelo atual das classes hospitalares do HC surgiu em 1997, quando uma criança se interessou pelas aulas de alfabetização oferecidas aos adultos. No início, as aulas eram ministradas por voluntários. Isso mudou após uma parceria com a Secretaria Estadual da Educação, que providenciou, inicialmente, duas pedagogas.

Bem sucedido, o projeto já foi premiado duas vezes. Em 2003, foi escolhido para integrar o caderno “20 Experiências de Gestão Pública e Cidadania”, do Programa Gestão Pública e Cidadania, realizado pela Fundação Getúlio Vargas e pela Fundação Ford, para disseminar práticas inovadoras de gestão pública. No ano seguinte, foi selecionado e intitulado como iniciativa de Boa Prática pela ONU-Habitat, do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos. Mais de 4 mil alunos já passaram pelas classes.

Lápis de Cor, exercícios e esperança

Aulas dentro do HC ajudam crianças a ignorarem rotina de um hospital e garantem o retorno da autoestima

F.L.Piton / A Cidade

Ezequiel Vitor dos Santos encara tratamento para doença no rim, mas com a ajuda de projeto não deixa de estudar; veja mais fotos na galeria  (foto: F.L. Piton / A Cidade)

Em meio a lápis de cor, gizes de cera, caça-palavras e problemas de matemática, Ezequiel, Odair, Gustavo, Isaac e David aprendem e se entretêm. A distração é necessária para esquecer as dores.

Ezequiel Vitor dos Santos Oliveira, 7 anos, é de Igarapava (MG) e sofre de hidronefrose (dilatação do rim causada por uma obstrução do fluxo da urina). Duas semanas atrás, ele teve uma infecção urinária e precisou fazer uma cirurgia no Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto.

O procedimento cirúrgico foi motivo de mais uma visita ao hospital. Antes disso, Ezequiel já havia feito outra operação para tirar um dos rins. Nos dias em que ficou internado, Ezequiel pintou, brincou de jogo da memória e adivinhou as iniciais dos nomes dos animais que a professora Dalva Trittoli, 62 anos, passou como tarefa.

“Essas atividades são boas, porque distraem. É importante, porque ele não fica parado e não perde o conteúdo da escola”, afirmou a mãe do menino, Sueli dos Santos Oliveira, 40 anos.

Muitos benefícios Os passatempos propostos pelas professoras Dalva, Jussara e Rejane também beneficiaram Odair José de Oliveira Silva, 7 anos, que nasceu com atresia tricúspide (ausência da válvula tricúspide, responsável pela passagem de sangue do átrio direito para o ventrículo direito do coração). O garoto de Igarapava já fez duas cirurgias e, na semana retrasada, fez um cateterismo.

Encarar um hospital não é nenhuma novidade para ele, que enfrentou uma mesa cirúrgica pela primeira vez quando ainda era um recém-nascido.

Para a mãe de Odair, Adriana Aparecida de Oliveira Silva, 38 anos, as classes hospitalares são fundamentais para o desenvolvimento das crianças hospitalizadas. “Elas servem para ocupar o tempo e, ao mesmo tempo, não deixam as crianças esquecerem o que aprenderam na escola.”

Esse é exatamente o objetivo do projeto: dar continuidade às atividades escolares. “A gente quer que a criança tome gosto pelos estudos”, disse a assistente social Silvana Mariniello, 68 anos. Ela explica que as classes hospitalares têm a intenção de proporcionar às crianças e aos jovens hospitalizados interação social e melhor qualidade de vida, estimulando-os a retornar às escolas sem prejuízo do ano letivo.

O objetivo parece ter sido alcançado com Isaac Gabriel Cardoso Tavares, 10 anos. De Brodowski, o menino conclui os caça-palavras na sala de aula sem a ajuda da professora, contrariando a doença que o levou ao hospital, a Síndrome de Prader-Willi, uma desordem genética que afeta o cromossomo 15 e causa obesidade, dificuldade de aprendizagem e problemas comportamentais. “Ver a evolução dos alunos é muito satisfatório”, observou a professora Rejane Campos.

Aulas ajudam na autoestima das crianças

Para Renata Gorayeb, psicóloga da cirurgia pediátrica do HC, as classes hospitalares desempenham papel importante no resgate da autoestima dos pacientes. “A partir do momento em que eles têm a competência de manter a rotina que eles teriam fora do hospital, eles se mantêm mais aptos ao desenvolvimento natural de uma criança”, esclareceu.

Além disso, as aulas podem reduzir o tempo de internação. “A criança se sente mais próxima à normalidade. Ela tem uma segurança maior e permite mais os atendimentos e curativos, por exemplo. A adesão ao tratamento é melhor.”

A diretora de enfermagem da ortopedia do HC, Sandra Regina Furiama, comenta que as classes hospitalares mantêm os pacientes ocupados e desviam a atenção das crianças.

“As crianças e as mães não ficam tão focadas no problema. As crianças tomam banho e se arrumam para as aulas. É como se elas fossem realmente para a escola. Tiram a roupa do hospital e ficam na porta da enfermaria esperando a professora passar. Elas gostam”, contou.

 Professores contam desafio de educar crianças no hospital

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Dalva orienta o meno Odair durante aulas do projeto; veja mais fotos na galeria  (Foto: F.L. Piton / A Cidade)

Ser professora não é tarefa fácil. Ser professora em um hospital, então, é um desafio. A professora Maria Aparecida Fava Magalini, 60 anos, que o diga. Com 14 anos “de casa” no Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto, ela conta que, muitas vezes, é preciso segurar o choro. “Nós não podemos demostrar que estamos tristes. Aqui, as lágrimas não escorrem pelo rosto, mas sim pelo coração”, afirmou.

Quem se propõe a dar aulas em um hospital deve ser paciente, ter “jogo de cintura” e saber controlar as emoções. “Você sente o que a mãe do paciente está sentindo, mas você tem que guardar o seu emocional. A alegria a gente demonstra, mas o choro a gente segura. Nós choramos por dentro”, disse Dalva Tríttoli, 62 anos.

O “jogo de cintura”, segundo a assistente social Silvana Mariniello, 68 anos, é o principal “ingrediente”. “Tem que ter jogo de cintura, saber se a criança está com dor, dar a atividade de acordo com o que ela está disposta a receber.”

Dalva exemplifica. Conta que passava mal quando entrava em hospitais. Há cinco anos no HC, ela garante que a experiência das classes hospitalares mudou a sua vida. “Em uma escola regular, você não imagina o que é uma criança no leito. Aqui eu já cheguei a perder alunos”, lembrou. Além disso, a professora também aprendeu que não se deve ter dó. “Temos que tirar o paciente da tensão. Se ele está com dor, a gente fala que é passageiro”, explicou.

Mas não são só de perdas e tristezas que as professoras vivem. Elas comemoram cada conquista de seus alunos. “O pouco que a gente faz é uma grande contribuição. É um trabalho que eu faço com muito amor. Você tem que se doar, mas é gratificante”, destacou Rejane Campos.

Jussara Campos reforça o que foi dito pelas colegas: “Conheci um mundo diferente. Hoje vejo que nós podemos transformar com apenas um sorriso”.

As pedagogas do HC são habilitadas em Educação Especial, comissionadas pela Secretaria da Educação de São Paulo e vinculadas à Escola Estadual Professor Aymar Baptista Prado. Se a criança já estiver matriculada na rede de ensino, a escola encaminha ao hospital o conteúdo, o material e a prova referente às matérias dadas.

Médica diz que projeto dá ânimo para as crianças

A cirurgiã pediatra Yvone Vicente explica que as classes hospitalares dão uma “injeção de ânimo” aos pacientes. “Quando a criança sai de casa e da escola e vai para o hospital, ela se sente agredida e fica tímida. Ela não sabe o que vai acontecer e, quando chega ao hospital, tem injeção, médico que examina… A classe recupera a segurança daquele dia a dia de quando ela estava em casa. Na escola ela escuta histórias, desenha, aprende. A vida parece mais normal”, observou a médica.

Segundo ela, as classes hospitalares ajudam, inclusive, na recuperação dos jovens. “As classes ajudam na confiança. A criança percebe que nem tudo é agressivo no hospital, que tem alguém com quem ela pode contar: a professora”, ressaltou a médica.

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