Prof. Dr. Benedito Carlos Maciel, Superintendente do HC, fala sobre o atual momento e o futuro da Instituição

dr maciel1O Hospital das Clínicas completa 60 anos. Durante essas seis décadas, a Instituição cresceu em todos os aspectos e tornou-se referência de qualidade para todo o país. O Jornal do HC conversou com o superintendente Benedito Carlos Maciel que falou sobre o atual momento e o futuro da Instituição.

 Jornal HC- Professor, se um estrangeiro, que não conhece o Hospital,  perguntar o que o Hospital das Clínicas representa para a sociedade, o que o senhor responde?

Prof. Maciel - Ao longo dos seus 60 anos de existência, o HCFMRP consolidou-se como importante centro de referência para o atendimento em saúde de uma população de aproximadamente 4 milhões de habitantes. Com 36% dos leitos hospitalares oferecidos ao SUS na região da DRS XIII e 51% dos leitos de Ribeirão Preto, o Complexo de Saúde, coordenado pelo HCFMRP, FMRP e FAEPA, é responsável por 80% do atendimento de alta complexidade e 43% de média complexidade dessa região. É também inequívoca a relevância de seu papel como centro de formação de pessoal na área da saúde, onde anualmente em torno de 4500 pessoas realizam seu treinamento, incluindo estudantes de graduação (Medicina, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Nutrição e Metabolismo, Terapia Ocupacional, Informática Biomédica, Enfermagem, Psicologia, Serviço Social), pós-graduação (mestrado, doutorado, mestrado profissional), residência (médica e multiprofissional), complementação médica especializada, aprimoramento e estágios. Os mais de 400 projetos de pesquisa desenvolvidos, anualmente no Hospital, permitem dimensionar seu engajamento na produção de novos conhecimentos. Creio que esses elementos permitem dimensionar o papel social relevante do Hospital.

Jornal HC - A satisfação de 99% dos pacientes internados no HC, demonstrada em pesquisa, significa que chegamos ao ápice. Não há mais o que melhorar?

Prof. Maciel - De fato, essas pesquisas que realizamos regularmente mostram realmente números bastante expressivos de satisfação dos nossos pacientes, tanto no atendimento ambulatorial como naquele oferecido durante as internações. Esse resultado não deixa de ser estimulante e recompensador para a Instituição, mas não significa, de modo algum, que não haja mais o que melhorar. A percepção final que o paciente tem do atendimento que recebe depende de uma cadeia de fatores e processos inter-relacionados bastante complexa, que inclui aspectos muito diversos como: a atenção, carinho e capacitação das equipes de profissionais de saúde, a adequação da infraestrutura física disponibilizada, pessoal qualificado em número suficiente para o atendimento necessário, a qualidade dos recursos diagnósticos e tecnológicos oferecidos, a adequação dos procedimentos terapêuticos utilizados, a qualidade dos materiais empregados, os processos administrativos que estão subjacentes a todos esses elementos. Cada um desses fatores envolve processos de trabalho que sempre podem ser aprimorados, sendo que vários deles dependem da disponibilidade de recursos financeiros. Portanto, devemos sempre buscar a excelência do atendimento, o que representa um desafio continuado para todos os componentes da Instituição.

Jornal HC -  O HC recebeu mais de R$ 160 milhões de investimentos do Governo do Estado, nos últimos anos.  O que significa esse investimento para o Hospital?

Prof. Maciel - Esse investimento foi fundamental para que o Hospital desenvolvesse um projeto de ampliação e reestruturação abrangente, elaborado na gestão anterior, que incluía várias obras: a finalização da construção do HC Criança, uma nova unidade com 233 leitos hospitalares, a reforma do Centro de Reabilitação, novo ambulatório de Ortopedia, a criação do Centro de Transplante de Órgãos Sólidos, o Centro de Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia, a criação do CTI pós-operatório, uma nova Unidade Coronariana, ampliação da Unidade de Diálise, a construção de um novo estacionamento para 800 veículos, reforma da Angiografia e criação da Unidade de AVC da Unidade de Emergência, além de um conjunto de reformas de área física de menor porte. Apesar desse grande investimento, o maior que testemunhei em uma única gestão do Governo do Estado, o projeto ainda prevê muitas outras obras importantes para o Hospital, que são decorrentes da liberação de espaço que ocorrerá após a inauguração completa do HC Criança: ampliação do CTI de adultos para 40 leitos, nova área para o setor de Medicina Nuclear, novas salas de Tomografia Computadorizada, Radioterapia e de Ressonância Magnética, reforma de área física para o Centro de Oncologia, reforma do ambulatório de Oftalmologia, criação do Hospital Dia, climatização dos ambulatórios, nova área para o Centro de Reprodução Humana, Unidade de Queimados da Unidade de Emergência, Centro de Medicina Genômica, ampliação da Unidade Especial de Tratamento de Doenças Infecciosas, implementação da Farmácia de Dose Unitária, ampliação do Centro Cirúrgico e do Centro de Cirurgia Ambulatorial do Campus. Além disso, o Hospital carece de um aprimoramento de sua infraestrutura elétrica, de ar condicionado e de segurança. Quando todo esse projeto estiver concluído, o Hospital passará dos atuais 878 leitos para aproximadamente 1080 leitos.

Jornal HC - O senhor fez um prognóstico de dificuldades financeiras quando assumiu por causa da queda arrecadação de impostos. Essa previsão se concretizou? O que está fazendo para contornar esse momento?

Prof. Maciel - A grave crise financeira que o país vive, há pelo menos dois anos, teve impacto muito importante na arrecadação de impostos federais e estaduais, com consequente limitação de recursos dessas duas fontes fundamentais para o orçamento do nosso Hospital. Em consequência, esse projeto de ampliação e de obras teve sua velocidade um pouco reduzida. Um grande esforço tem sido empreendido pela Administração e pelas equipes profissionais no sentido de racionalizar e otimizar a utilização dos recursos financeiros disponibilizados. Em que pesem todas essas dificuldades, até o momento, temos conseguido manter o volume de atendimento oferecido à população sem prejuízo da qualidade.

Jornal HC - O valor da tabela SUS não é reajustada há quanto tempo? O senhor pode dar alguns exemplos dessa tabela?

Prof. Maciel - Os valores referentes a exames, atendimentos e procedimentos que constam da tabela de remuneração do SUS aos prestadores de serviços de saúde não experimentam um reajuste global desde 1996, embora, em intervalos variáveis de tempo, parte de seus procedimentos tenham sido reajustados. Reconhecidamente, contudo, esses reajustes pontuais não têm sido suficientes para repor as defasagens acumuladas ao longo dos anos e, consequentemente, são insuficientes para cobrir integralmente os custos dos prestadores. No caso dos hospitais universitários como o nosso, essa tabela é uma referência para caracterização de uma série histórica de volume de atendimento, uma vez que a remuneração SUS do nosso Hospital é realizada com base em teto financeiro estabelecido a partir dessa série histórica, que inclui os atendimentos de média e alta complexidade. Remuneração adicional por serviço prestado é válida apenas para os procedimentos estratégicos de alta complexidade, como os transplantes. Observe-se, entretanto, que nosso teto foi reajustado pela última vez há 4 anos e que atualmente realizamos um volume de atendimento que está entre 10 e 20% acima do teto estabelecido, o que deveria nos proporcionar um aumento mensal significativo de recursos, caso a revisão do teto fosse realizada com a regularidade prevista. Apenas como exemplo, a tabela vigente estabelece um valor de remuneração para uma consulta médica de R$ 10,00, para um eletrocardiograma de R$5,15, enquanto um parto cesárea de alto risco é remunerado por R$ 890,94.

Jornal HC - O que permite ao Hospital continuar prestando serviços com essa baixa remuneração?

Prof. Maciel - Felizmente, o orçamento do nosso Hospital não depende exclusivamente do SUS já que, como autarquia estadual, ele tem um orçamento do Governo do Estado que possibilita a manutenção de suas atividades. Além disso, também contribuem recursos auferidos através de uma parceria mantida com a FAEPA, no atendimento de pacientes particulares e vinculados a convênios, e aqueles obtidos através de Projetos de Pesquisa, desenvolvidos no Hospital das Clínicas pelos docentes da FMRP/USP, financiados por órgãos de fomento.

Jornal HC - Quais foram os principais desafios nesses quase 15 meses de sua gestão?

Prof. Maciel - Diante das enormes dificuldades financeiras mencionadas, um dos principais desafios tem sido manter o volume de atividades de atenção à saúde à população sem prejuízo da qualidade do atendimento. Até o momento, temos tido sucesso nessa empreitada; a rigor, o volume de atendimento foi um pouco maior em 2015 que em 2014, o mesmo ocorrendo entre janeiro e abril deste ano comparativamente ao mesmo período do ano passado. Do mesmo modo, as atividades de formação de pessoal não foram afetadas pela crise financeira. O outro grande desafio foi dar continuidade ao projeto de reestruturação e ampliação do Hospital já mencionado. Apesar das dificuldades, ainda que em menor velocidade, conseguimos recursos para concluir o HC Criança, o Centro de Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia, a Unidade de Diálise, o sistema viário de acesso ao novo estacionamento. Essas obras serão concluídas neste mês de junho. Além disso, foram adquiridos equipamentos de grande porte (acelerador linear para radioterapia e tomografia computadorizada de alta velocidade), que exigiram adaptações de infraestrutura física.

Jornal HC - Quais são os desafios para os próximos anos?

Prof. Maciel - Existem desafios que são persistentes ao longo do tempo e que exigem contínuo esforço institucional no sentido de desenvolver as atividades de atenção à saúde com elevado nível de qualidade e segurança para os pacientes, bem como em volume compatível com as necessidades do SUS. Entre os desafios de infraestrutura, poderíamos destacar: 1) concluir as obras de ampliação e reestruturação do Hospital; 2) aprimorar a infraestrutura elétrica e de ar condicionado, bem como sua adequação para economia de energia elétrica; 3) adequação do Hospital às novas normas de segurança contra incêndio; 4) implantação de sistema de processamento de resíduos infectantes; 5) implantação de novo sistema informatizado de gestão hospitalar; 6) aquisição de novo sistema de gerenciamento de imagens médicas; 7) estudar a viabilidade de armazenamento dos dados hospitalares e imagens médicas em nuvem; 8) aquisição de equipamentos de PET CT e de ressonância magnética. Em suma, esses desafios envolvem uma busca contínua pela excelência na atenção à saúde.

Jornal HC - Essas obras que o senhor avalia como necessárias e as que já foram realizadas colocarão o Hospital em outro patamar?

Prof. Maciel - Quando completo, o programa de reestruturação e ampliação da infraestrutura fará com que o Hospital tenha um acréscimo de quase 25% no seu atual número de leitos, além de aprimoramento significativo na infraestrutura de atendimento e tratamento ambulatoriais. Esses acréscimos de infraestrutura foram planejados em consonância com as necessidades de atendimento em especialidades com demanda elevada no SUS ou dotadas de infraestrutura limitada. De modo que, o Hospital certamente poderá contribuir de forma ainda mais relevante para o equacionamento das necessidades do SUS em nossa região, proporcionando atendimento humanizado e de qualidade.

Jornal HC - É possível sair mais forte dessa crise?

Prof. Maciel - Embora a crise financeira tenha um lado perverso que torna mais difícil e complexa a execução das nossas atividades-fim, por outro lado, ela representa uma oportunidade ímpar para racionalização e otimização no uso dos recursos materiais e financeiros. Isso pode ser obtido com  análise crítica e aprimoramento dos processos de compras, revisão de protocolos clínicos e terapêuticos, bem como de processos administrativos, renegociação de contratos, análise custo efetiva de materiais médico-hospitalares,  procedimentos diagnósticos e terapêuticos. Acredito que esta racionalização do uso de recursos materiais e financeiros contribuirá para que possamos superar essa crise e nos fortalecermos com ela.

Jornal HC - Vamos fazer um exercício de “futurologia”. Como será o Hospital daqui a 60 anos? É possível imaginar como será o atendimento, a tecnologia usada daqui a 60 anos?

Prof. Maciel - Confesso-me incapaz de imaginar, com algum grau de confiabilidade, como será o nosso Hospital daqui a 60 anos. Considerando a rapidez da evolução tecnológica, imagino que esses recursos serão muito mais sofisticados, ágeis e precisos que os disponíveis atualmente; espero que a um custo que possa ser assimilado pelos serviços públicos. Torço para que, ao longo desse tempo, nosso país se transforme efetivamente em uma nação séria, com grau de desenvolvimento suficiente para proporcionar à sua população um adequado nível de educação e serviços públicos de qualidade, que sejam acessíveis a todos os brasileiros, de modo a cumprir, finalmente, a eterna promessa de país do futuro.

Jornal HC - Como é que o senhor quer que a comunidade do HC e a população olhe daqui a alguns anos para sua administração?

Prof. Maciel - Como Superintendente do Hospital, procuro desenvolver minhas atribuições com o máximo de dedicação e comprometimento de que sou capaz, procurando corresponder à confiança em mim depositada por muitos colegas e amigos, que me estimularam, pelo Conselho Deliberativo do Hospital, que incluiu meu nome na lista tríplice, e pelo Governador do Estado, que me nomeou para esse honroso cargo. Essa distinção é para mim muito especial, uma vez que devo a essa Instituição muito do que a vida me proporcionou de bom. Exerço essas funções procurando o aprimoramento contínuo das condições de trabalho das equipes profissionais e da qualidade do atendimento oferecido à população, sempre em consonância com as necessidades do Sistema Único de Saúde.

Jornal HC - Que mensagem o senhor deixa a todos que contribuíram e contribuem para o HC ser uma referência?

Prof. Maciel - Em face do grande impacto social de suas atividades de atenção à saúde, formação de pessoal e de pesquisa, bem como de seu elevado nível de qualidade, nossa Instituição conquistou perante a população amplo reconhecimento. Esse êxito só foi possível graças ao comprometimento, empenho e dedicação de todos os profissionais que atuam nesse Complexo. Portanto, nesse momento especial eu não poderia deixar de externar o sentimento de enorme gratidão a todos que contribuem diuturnamente para o engrandecimento da nossa Instituição. Muito obrigado a todos.

Referência: Assessoria de Imprensa HCFMRP-USP

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