Prof. Ciconelli fala sobre cirurgia de 1968 que mudou transplantes de rim

Cidade faz história e se projeta no mundo

16/03/2014 – 16:33

Jornal A Cidade - Sidinei Quartier

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Na semana do ‘Dia do Rim’ o mestre Áureo Ciconelli rompe um longo silêncio para contar os detalhes (Foto: Milena Aurea/A Cidade)

Fevereiro de 1968. Eleito pelo Congresso Nacional, o general Arthur da Costa e Silva é o presidente da República. O prefeito de Ribeirão Preto, com 210 mil habitantes, é Welson Gasparini. Ambos pertencem ao mesmo partido: ARENA (Aliança Renovadora Nacional). Só existem dois partidos políticos. O de oposição é o MODEBRA (Movimento Democrático Brasileiro), depois MDB. Nas ruas de Ribeirão e do País, os estudantes protestam contra a ditadura militar. Os vietcongues lançam a “ofensiva Tet” contra os norte-americanos. Vão ganhar a guerra.

Já na madrugada do dia 12 de fevereiro, no Hospital das Clínicas da Bernardino de Campos, alguns homens tomam uma decisão que vai mudar a história da medicina ribeirão-pretana.

Sob o comando do urologista e cirurgião Áureo José Ciconelli, vai ser feito o primeiro transplante de rim, utilizando cadáver, da América Latina. Até então, só haviam sido feitos transplantes renais com doadores vivos, pelo médico Geraldo de Campos Freire, no Hospital das Clínicas, em São Paulo, a partir de 1965.

Um dos médicos da equipe de Ciconelli, o também urologista Antônio Carlos Pereira Martins, convence os familiares de uma mulher de 28 anos, com morte cerebral, a ceder o rim.

Impasse
Passa da meia-noite do dia 12 e surge um problema inesperado. O diretor da Faculdade de Medicina, José Moura Gonçalves, veta o transplante. Chamado às pressas, o professor Paulo Gomes Romeo, superintendente da Universidade assume o risco e aprova o procedimento. Há tensão no ar.

Finalmente, começa o transplante. Na sala de cirurgia, acompanham Áureo Ciconelli e Pereira Martins, os cirurgiões vasculares Cláudio Tácito Escobar e Osvaldo Teno Castilho. O professor Ruy Ferreira dos Santos chega pouco depois. O rim é retirado do corpo da doadora por Pereira Martins. Depois de três horas de trabalho, o transplante chega ao fim.

Bendita urina
No momento em que a anastomose (ligação da artéria do rim do doador ao do receptor é concluído, com a retirada de uma peça chamada clamp) o paciente Valdomiro Custódio, 36 anos, urina imediatamente.

A bendita e bem-vinda urina muda o astral na sala de cirurgia. A tensão, a preocupação e a dúvida vão embora. Os médicos se entreolham emocionados. O transplante tinha sido bem-sucedido.

Valdomiro Custódio, protegido pelo soro para combater rejeição (globulina antilinfocitária) elaborado pelo doutor Ciconelli a partir de suas experiências com cães, viveu até dezembro.

Mas não o suficiente para ver a decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro, que fechou o Congresso Nacional durante onze meses.

O AI 5 possibilitou a cassação de 73 deputados federais, 5 senadores, 151 deputados estaduais, 22 senadores, 22 prefeitos eleitos democraticamente e mandou para a prisão operários, jornalistas, artistas, intelectuais e profissionais liberais. Vários deles foram mortos e, de alguns, os corpos, até hoje, não foram entregues aos familiares.

Em meio a esse caos, a nossa medicina dava um belo passo em direção ao futuro. Hoje, passados 46 anos, já foram feitos 1.500 transplantes. Na última década, com média de 60 a 64 transplantes/ano.

Em março de 2014, ele quebra jejum de 46 anos
Nos dias seguintes, repórteres da grande imprensa apertaram o cerco em torno de Áureo José Ciconelli, coordenador da equipe que fez o transplante pioneiro de rim, usando cadáver, na América Latina. Mas ele se negava a dizer qualquer coisa. Seu grande temor era que fizessem sensacionalismo ou escrevessem coisas que ele não teria dito.

“Eu sempre levei a medicina muito a sério e, com transplantes, é muito mais sério ainda”, diz hoje.

Sua vontade expressa de não dar entrevista perdurava há 46 anos. Mas na última terça-feira, em sua casa, na rua São José, recebeu o repórter de A Cidade durante 40 minutos. Ao fim da conversa, voltou a justificar seus receios: que não houvesse sensacionalismo e nem escrevesse coisas que ele não disse.

Ao falar do transplante, o doutor Ciconelli sempre usou “nós”, referindo-se à equipe. Em momento algum, arrebatou o feito. Pelo contrário. Mostrou-se humilde ao admitir que tornou-se urologista por acaso. E que muito jovem, na mais concorrida escola do País (a Universidade Nacional do Rio), pobre, filho de motorista de caminhão, fez uns “bicos” na polícia de Getúlio Vagas para garantir algum dinheiro.

“Eu tinha braços fortes. Mas fazia pouca coisa, organizava filas. Era rígido. Mais tarde, com os transplantes, por me recusar em atender fura-filas, cheguei a ser receber ameaças”, contou.

Ciconelli sonhava em ser um grande cirurgião. Tanto é, que em 1954, um ano depois de formado, prestou um concorrido concurso para se tornar assistente de Fernando Paulino, um dos melhores do Brasil. O que ele não sabia, é que os ensinamentos de Paulino, durante dois anos, iriam levá-lo a fazer um transplante.

Sérgio Castro/Estadão Conteúdo

Cirurgias mais seguras, com grande sobrevida e muitas vitórias sobre o risco de rejeição dos órgãos (Foto: Sérgio Castro/Estadão Conteúdo)

Ruy Ferreira Santos foi um dos incentivadores
Em 1956/57, Ciconelli foi convencido pelo professor Ruy Ferreira Santos, da USP, com a ajuda do cirugião Fernando Paulino, que seu futuro estava em Ribeirão Preto.

“Não tínhamos urologista no Hospital das Clínicas e o professor Ruy decidiu que eu era o mais graduado em cirurgia do quadro dele, ainda muito jovem, mas em condições de assumir a função”, lembra-se.
Em 1960, Ciconelli vai para Campinas trabalhar com o doutor Rocha Brito. Em seguida, monta o serviço de urologia nas Clínicas. Em 63, fez doutorado na Medicina de Ribeirão.

“A minha ascensão como urologista se deve ao Rocha Brito, em Campinas. Aí surgiu o Campos Freire, professor de urologia da USP de São Paulo, que tinha feito o primeiro transplante de doador vivo, em 65. Fiquei uns meses com ele e achei que estava pronto para assumir tudo”.

Doutor Ciconelli cria o ambulatório de urologia, forma um grupo de trabalho e se esforça para montar a hemodiálise em Ribeirão, que não existia.

“Eu estava interessado em transplante. Aí o Ferreira Santos concordou que eu fosse aos EUA novamente. Em Boston, me iniciei nos transplantes de rins”.

Não foi apenas Boston. O doutor Ciconelli esteve duas vezes nos EUA, rodando por hospitais e universidades, em busca de conhecimento.

“Operei centenas de cachorros, transplantando rim de um para outro. Quando o grupo estava pronto, tecnicamente, para a fazer o transplante em gente, fomos atrás de rins compatíveis. Eu não era de fazer sensacionalismo. Medicina é uma coisa muito séria e o transplante muito mais. Só por isso nunca quis conversar com a imprensa”, disse.

O dr. Barnard vem aprender com Ciconelli
Em três de dezembro de 1967 – três meses antes do inédito transplante de rim, em de Ribeirão – Christian Barnard, jovem sul-africano que estudou nos EUA, se antecipa aos médicos norte-americanos e realiza o primeiro transplante de coração da história.

Já consagrado, Christian Barnard ouve “falar” de Áureo Ciconelli. Quem lhe dá notícias é o doutor Campos Freire, do HC de São Paulo. Em 1969, interessado em conhecer o soro para combater rejeição em transplantes (globulina antilinfocitária) descoberto em Ribeirão, Christian Barnard desembarca na cidade. Vai ver Ciconelli.

Em 13 de fevereiro de 1971, Ciconelli realiza antiga aspiração: ao lado de Carlos Martinelli (que mais tarde se tornaria superintendente do HC), Agenor Spalini Ferraz, Adalto José Cologna e Marco Antônio Sahão, comanda a primeira sessão de hemodiálise no HC-Ribeirão.

De 1968 até hoje, HC já fez 1.500 transplantes de rim

F.L. Piton/A Cidade

Desde a 31 de janeiro, Eduardo Guimarães Lage Neto está internado no Hospital das Clínicas; toma 21 comprimidos por dia (Foto: F.L.Piton/A Cidade)

Aos 61 anos, Eduardo Lage se sente como um recém-nascido. Acabou de receber um rim saudável na Unidade de Transplante Renal (UTR) do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, que leva o nome de Áureo Ciconelli. (Leia mais embaixo).

A unidade é dirigida há oito anos pelo rio-pretense Sílvio Tucci Júnior. Ele sucedeu Antônio Carlos Pereira Martins na chefia do departamento. Mas a sala onde são feitos os procedimentos, é frequentada por Tucci há mais de 30 anos.

Aliás, ele tinha 19 anos quando foi realizado o primeiro transplante utilizando órgão de cadáver, na América Latina, em 12 de fevereiro de 1968. Ele admite que o enxerto foi providencial. “O pioneirismo da logística proporcionou a criação de uma unidade renal de transplante em Ribeirão. A difusão da técnica também impulsionou os transplantes no Interior”, diz.

64 transplantes 
A maior prova é que dos 64 transplantes realizados no HC, no ano passado, apenas cinco foram com doadores vivos. A base da técnica utilizada é a mesma criada na década de 1950 pelo francês René Küss. Mas aprimorada com o progresso natural da medicina na área renal.

De 1968 até hoje – em 46 anos – o HC realizou perto 1.500 transplantes. Não se sabe o número exato em razão da perda de dados anteriores durante a troca de sistema na rede de computadores do hospital. A média de vida dos transplantados no HC, segundo o professor Tucci Jr., é de vinte anos.

“Temos pacientes que já completaram 30 anos de enxerto. Mas há óbitos, apesar do uso de novos imunossupressores, por causa da rejeição crônica. Em crianças, a durabilidade é menor, entre dez a quinze anos”.

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Sílvio Tucci Júnior, da Unidade de Transplante Renal do HC, quer mais doadores (Foto: F.L.Piton/A Cidade)

Doadores
Hoje, mais importante que o transplante, cujas técnicas são melhoradas a cada ano, é o trabalho de captação de órgãos, avisa Sílvio Tucci Jr.

E para que a pessoa se torne doadora, não é necessário nada mais que avisar os familiares. “Ninguém precisa ficar sabendo se você é ou não doador. Apenas os familiares. Não é preciso cadastro. Na hora da morte, é difícil falar com a família sobre doação. A menos que a pessoa seja doadora”.

Com o crescimento de quadros de diabetes e hipertensão, agentes estranguladores do rim, a fila de receptores aumenta gradativamente. A doação de órgãos é um mecanismo, diz o professor Tucci, para amenizar o problema.

“O fato de você tirar a pessoa da hemodiálise é um enorme ganho. O paciente da hemodiálise, três vezes por semana, quatro horas cada sessão, vira escravo da doença. Pode pouco, não consegue viajar”.

Fila grande
Na lista do Estado de São Paulo, no começo deste mês, 10.657 receptores estavam cadastrados à espera de rim. No ano passado, foram feitos 1.473 transplantes apenas com doadores falecidos. O número de transplantes com doadores vivos, foi perto de 300, totalizando 1.773.

“O transplante não é glamour. É mão de obra pura, dura, difícil, que vara madrugadas”, adverte Tucci.

Eduardo toma 21 comprimidos por dia e injeções
O pós-operatório de quem recebeu um rim novo requer muitos cuidados. Entre eles, uma bateria de remédios para evitar infecções e a indesejada e temida rejeição. Que o diga Eduardo Guimarães Lage Neto, ribeirão-pretano da Vila Tibério, 65 anos, um casal de filhos.

Eduardo fez o procedimento em 31 de janeiro e ainda continua internado num dos 15 leitos da área dos transplantados do HC.

Enquanto a alta não chega, Eduardo toma 21 compridos por dia, além de uma injeção e outras duas subcutâneas. Mas ele não reclama. Abre um sorriso e garante que está bem melhor que antes.

Vendedor de agitado dia a dia e refeições irregulares, Eduardo se tornou mais uma vítima do diabetes e da pressão alta, que desgastaram seu rim.

Ele conta, com precisão, o dia que submeteu-se à primeira sessão de hemodiálise: 22 de setembro de 2009. Diante da gravidade – Eduardo sofria com o quadro de inchaço – os médicos sugeriram que ele entrasse na fila de receptores.

O 31 de janeiro, depois da cirurgia, ele celebrou como data de prolongamento de sua vida. Sua recuperação é ótima, atestam os enfermeiros. A alta é questão de dias.

Ivo Jesus 
Aos 64 anos, Ivo Jesus dos Reis, residente em Pitangueiras, é um principiante em hemodiálise. Seu rim adoeceu depois que ele colocou uma válvula metálica no coração, em 1997. Foi uma infecção, conta.

Funcionário da Secretaria Estadual da Educação, Ivo ainda não se inscreveu como receptor. Ele tem esperança de controlar o problema com o uso de medicamentos. Quinta-feira passada, ele fez a terceira sessão de hemodiálise. Os médicos acompanham.

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Na sala de hemodiálise do HC, os mais experientes e resolutos, como Antônio Lima de Souza, enfrentam às sessões resistindo bem ao frio do ar-condiconado (Foto; F.L.Piton/A Cidade)

Antônio faz hemodiálise desde 2007
Desde 2007 – há sete anos – Antônio Lima de Souza submete-se a sessões de diálises, às terças, quintas e sábados, no Hospital das Clínicas. Uma Van vai buscá-lo, em casa, no Jardim Jandaia, de Ribeirão Preto.

Antônio, 61 anos, é um candidato a transplante. Enquanto aguarda a vez, com paciência e fé, rezando pelo surgimento de um doador compatível, ele diz que “está no céu”: é muito bem tratado pelos médicos e enfermeiras do HC. Faz a hemodiálise sob o signo da esperança.

Antônio descobriu que estava doente quando morava na zona rural de Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, divisa com a Bahia, uma das regiões mais secas do país.

Corria o ano de 2006, e a pressão alta mandou-o ao hospital algumas vezes. Seu rim estava muito mal.

Os médicos disseram que ele teria poucas chances de sobrevivência se não fosse para um lugar onde houvesse socorro de qualidade. Antônio, então, veio para Ribeirão, onde moram dois de seus nove filhos. Ele toma cinco comprimidos diariamente.
Nesta quinta-feira, seu Antonio estava lá, na hemodiálise, para mais uma sessão de esperança.

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Pereira Martis, o então pupilo de Ciconelli participou ativamente da cirurgia de transplante (Foto: F.L.Piton/A Cidade)

‘Nosso general-chefe foi o Ciconelli’
Coube ao cirurgião Antônio Carlos Pereira Martins, hoje com 72 anos, uma das intervenções mais delicadas no transplante de 12 de fevereiro de 1968, feito no Hospital das Clínicas, na região central de Ribeirão Preto: convencer a família da mulher com morte cerebral, a doar o rim.

“Atualmente, o profissional que atesta a morte de um doador, não pode fazer parte da equipe de transplante. Mas naquela época não havia legislação sobre o tema”.

Coube também a Martins retirar o rim da doadora. O transplante durou mais de três horas. Como foi durante a madrugada, a equipe não sentiu tanto, lembrou o médico.

“Na verdade, o grande general, o chefe do transplante pioneiro de 1968, foi o doutor Áureo Ciconelli. Eu me tornei também general, chefe, com o passar dos anos. Naquele dia, foi ele quem dirigiu tudo”.

1º transplante 
O primeiro transplante renal no Brasil aconteceu em 21 de janeiro de 1965, no HC de São Paulo, sob a chefia de Geraldo de Campos Freire. O paciente recebeu o rim do irmão e viveu oito anos, apesar de muitos problemas imprevistos.

Por isso, em Ribeirão, Ciconelli precaveu-se contra eventuais gravidades, ao fazer um transplante que julgava mais seguro, com doador cadáver. E foi o começo de uma nova fase.

Referência: Jornal A Cidade – 17/03/14

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