Pesquisadores do CRID identificam mecanismo que causa imunossupressão em sobreviventes à sepse

unnamedUma pesquisa desenvolvida pelo Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) financiados pela Fapesp e sediados no campus de Ribeirão Preto da USP, ajuda a entender a causa da imunossupressão que se desenvolve em pacientes sobreviventes à sepse, representando uma nova perspectiva para prevenir mortes prematuras.

Conhecida popularmente como infecção generalizada, a sepse atinge cerca de 670 mil pessoas por ano no Brasil e representa um gasto pelo sistema hospitalar de aproximadamente R$ 17 bilhões – R$ 10 bilhões com pacientes que acabam morrendo –, segundo dados do Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS). Ela é causada quando uma infecção por micróbios, como bactérias ou vírus, não é controlada e desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica no organismo. Isso leva ao desenvolvimento de lesões nos tecidos do corpo e pode resultar na morte do paciente por falência múltipla dos órgãos, ou seja, o dano é tão grande que eles simplesmente deixam de funcionar.

Segundo um dos pesquisadores principais do CRID e docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), José Carlos Farias Alves Filho, existem diferentes graduações de gravidade da sepse. A forma mais grave delas é o choque séptico, que gera um sério comprometimento dos órgãos. Estima-se que cerca de 50% dos pacientes com choque séptico vêm a óbito, sendo ele, portanto, a principal causa de mortes em pacientes de UTI.

No entanto, o problema do paciente séptico não termina com a alta hospitalar. “Vários estudos em pacientes que sobrevivem à sepse demonstram que eles ficam com sequelas que podem durar anos, entre elas neurológica, como redução de memória, cardiovascular e imunológica. A sequela imunológica é caracterizada por uma imunodisfunção que resulta em uma maior suscetibilidade a infecções e também uma maior propensão ao desenvolvimento de tumores, devido à redução da imunovigilância”, explica o pesquisador.

Um estudo realizado pela pós-doutoranda Daniele Carvalho Nascimento, orientada por Alves Filho, identificou parte do mecanismo envolvido no desenvolvimento da imunodisfunção pós-sepse. Os pesquisadores demonstraram que, paralelamente à resposta inflamatória sistêmica que ocorre durante a sepse, o corpo produz uma citocina chamada Interleucina 33 (IL-33). Essa substância desencadeia uma resposta de reparo dos tecidos nos pacientes que sobrevivem à fase aguda.

“Observamos que, quando a infecção primária é controlada, o que acontece no caso dos sobreviventes à sepse, o organismo ativa um mecanismo de reparo dos danos que aconteceram nos tecidos. Esses reparos envolvem a geração de um subtipo de macrófagos conhecido como M2, que é induzida pela IL-33. Os macrófagos M2 produzem uma série de fatores que promovem reparo tecidual”, conta Alves Filho.

Porém, paralelamente à produção de fatores de reparo tecidual, os macrófagos M2 liberam mediadores como a Interleucina 10 (IL-10) e a proteína TGFβ, que também estão envolvidos na geração de linfócitos T reguladores (Treg), um tipo de célula do sistema imunológico capaz de suprimir a imunidade do indivíduo. “Esses linfócitos geralmente estão presentes em todas as pessoas, mas em número controlado. Entre outras funções, eles são importantes para a manutenção da tolerância imunológica, evitando o desenvolvimento de doenças autoimunes espontâneas”, explica o docente.

No entanto, a elevação no número de linfócitos Treg pode levar a uma imunossupressão, deixando o indivíduo mais suscetível a infecções. No caso de pacientes que sobrevivem à sepse, infecções secundárias que são de simples solução para pessoas sadias podem levar à morte. “Portanto, se conseguirmos evitar o aumento descontrolado das células Treg ou as ações supressoras, poderemos barrar essa imunossupressão e, consequentemente, aumentar a expectativa de vidas desses pacientes”, diz Alves Filho.

Os resultados obtidos no estudo foram publicados na revista Nature Communications. Atualmente, Daniela está realizando parte do seu pós-doutorado na França, com bolsa financiada pela Fapesp, onde busca entender mais detalhadamente de que forma os macrófagos M2 promovem o aumento dos linfócitos Treg após a sepse.

Mais informações: crid@fmrp.usp.br
Referência: Nature Communications – Foto: Pixabay

Home      Voltar
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP

Av. Bandeirantes, 3900 - Monte Alegre - CEP: 14049-900 Ribeirão Preto/SP.

acesse nossas comunidades logo_face  logo_tw  stoa-logo-white AlumniUSPTV_Complexo0 

Desenvolvido por Xpirit