Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto -USP participam de estudos que estabelecem uma nova estratégia terapêutica para o tratamento da hipertensão arterial

ImagemPortal01Composto controla o aumento da pressão nos casos relacionados à hiperatividade simpática; resultados de testes pré-clínicos foram divulgados na revista Nature Medicine.

Os pesquisadores Davi J. A. Moraes, Melina P. da Siva e Benedito H. Machado, do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, participaram de um estudo publicado no dia 05/09/2016 no periódico Nature Medicine, no qual uma nova estratégia terapêutica, envolvendo um medicamento recentemente desenvolvido, foi estabelecida para o tratamento da pressão arterial anormalmente elevada (hipertensão arterial). Esse estudo desenvolvido com participação de pesquisadores da Inglaterra, Nova Zelândia, Brasil e uma indústria farmacêutica dos Estados Unidos, representa para o Professor Benedito H. Machado “um excelente exemplo da interação internacional entre pesquisadores de áreas básicas (fisiologia e farmacologia), clínica (cardiologia) e a indústria farmacêutica, o que resultou num medicamento com provável uso terapêutico nos próximos anos”.

Ao invés de combater a hipertensão arterial bloqueando os efeitos da atividade neural excessiva sobre o coração e os vasos sanguíneos, esta nova abordagem visa reduzir a atividade dos corpúsculos carotídeos, um conjunto de pequenos órgãos sensoriais dedicados a controlar o oxigênio no sangue, que quando anormalmente ativados podem fazer com que a pressão arterial se mantenha elevada. Os corpúsculos carotídeos estão situados nas bifurcações das artérias carótidas que levam o sangue para o cérebro e são os menores órgãos do corpo, sendo cada um do tamanho de um grão de arroz. Quando os níveis de oxigênio no sangue diminuem, as células dos corpúsculos carotídeos se tornam ativas e enviam sinais para o cérebro que provocam aumentos na pressão arterial.

Em indivíduos saudáveis os corpúsculos carotídeos têm níveis muito baixos de atividade. Essa equipe internacional e multidisciplinar coordenada pelo Professor Julian F. R. Paton, da Universidade de Bristol (Inglaterra), descobriu que esses órgãos sensoriais se tornam hiperativos em condições de hipertensão, aumentando a atividade de regiões do cérebro que geram a atividade nervosa para o coração e os vasos sanguíneos. Desta forma, alterações na atividade dos corpúsculos carotídeos podem determinar os níveis elevados de pressão arterial e, portanto, dentro dessa nova estratégia passaram a representar um alvo terapêutico para combater a hipertensão arterial.

Para realizar este estudo, a equipe de pesquisadores utilizou animais com hipertensão arterial de origem neural, a qual é a mais frequente em seres humanos. Nesse estudo eles demonstraram que o ATP, uma molécula conhecida por ser fonte de energia para células, foi capaz de ativar persistentemente o seu receptor P2X3 nos neurônios que constituem as comunicações entre as células dos corpúsculos carotídeos e as regiões do cérebro que geram a atividade nervosa para o coração e os vasos sanguíneos. Ao bloquear estes receptores usando o medicamento denominado MK-7264/AF-219, que se caracteriza por bloquear os receptores P2X3, a pressão arterial diminuiu significativamente em animais hipertensos. A equipe de pesquisadores pretende iniciar em breve estudos clínicos, na Inglaterra, para testar o efeito do MK-7264/AF-219 em pacientes hipertensos.

Os experimentos realizados pela equipe de pesquisadores brasileiros da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP e financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) foram determinantes para os avanços dessa nova estratégia terapêutica. “Os nossos registros intracelulares dos neurônios que constituem as comunicações entre as células dos corpúsculos carotídeos e as regiões do cérebro que geram a atividade nervosa para o coração e os vasos sanguíneos nos permitiram caracterizar de forma inequívoca os efeitos positivos desse novo medicamento (MK-7264/AF-219) no processamento das informações neurais anormalmente elevadas provenientes dos corpúsculos carotídeos de animais hipertensos” explicou o Professor Davi J. A. Moraes. “Queríamos entender quais seriam os mecanismos envolvidos na hiperatividade das células dos corpúsculos carotídeos na hipertensão. A nossa hipótese de que o ATP e os receptores P2X3 estariam envolvidos foi confirmada. Este novo medicamento (MK-7264/AF-219) não silencia a atividade dos corpúsculos carotídeos, mas faz com que a mesma se mantenha em níveis semelhantes ao normal” afirmou a pesquisadora Melina P. Pires.

Este medicamento pode ser considerado como uma nova estratégia terapêutica dirigida à origem do aumento excessivo da atividade neural para o coração e os vasos sanguíneos. Esta pesquisa se caracteriza como sendo translacional, pois estudou desde a molécula até o provável uso na prática médica, e reflete “a importância dos estudos fisiológicos para o desenvolvimento de novos medicamentos e novas estratégias terapêuticas para o tratamento de doenças que acometem os seres humanos” explicou o Professor Benedito H. Machado. Este estudo foi também um esforço de equipe multidisciplinar, e não teria sido possível sem a estreita colaboração entre os pesquisadores da Universidade de Bristol (Inglaterra), da Universidade de São Paulo (Ribeirão Preto, Brasil), da Universidade de Auckland (Nova Zelândia) e da Afferent Pharmaceuticals (uma empresa subsidiária da Merck & Co., Inc., Kenilworth, Estados Unidos). O apoio financeiro da FAPESP foi determinante para o sucesso desse estudo publicado num dos mais expressivos periódicos científicos na área das ciências biomédicas.

O artigo “Purinergic receptors in the carotid body as a new drug target for controlling hypertension” pode ser lido em: http://www.nature.com/nm/journal/vaop/ncurrent/full/nm.4173.html

Referência: nature.com

 

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