Pesquisa da FMRP-USP revela que traumas da infância podem estar relacionados a transtornos ansiosos na vida adulta

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Estudo na FMRP identifica traumas precoces específicos relacionados a tipos de transtornos ansiosos na idade adulta

A psiquiatria tem alertado que traumas emocionais na primeira infância são fatores de risco importantes para a saúde mental do indivíduo quando adulto. Pesquisa feita na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, da psicóloga Vanessa Fernandes Fioresi, confirmou essa relação e foi além, “identificou tipos específicos de traumas da infância que podem se relacionar ao desenvolvimento de transtornos de ansiedade na vida adulta”.

Entre os traumas precoces identificados na pesquisa de Vanessa estão: as vivências de traumas sexuais invasivos, que são os contatos sexuais que além de abusivos e coercitivos são mais intensos/agressivos, como estupros e toques de genitália em terceiros contra a vontade da vítima; traumas emocionais relacionados a sentimentos de menos valia, quando a pessoa sente-se desvalorizada, que ninguém se importa com ela; ou ainda, traumas gerais relacionados à presenciar violências familiares.

A pesquisa revelou que a personalidade neurótica é comum a todos os indivíduos com diagnóstico de transtorno de ansiedade social e com transtorno de estresse pós-traumático. “Essas pessoas têm dificuldade em adaptar-se ao meio social e podem sofrer mais que o normal com ansiedade, impulsividade, instabilidade emocional, baixa tolerância à frustração e ao enfrentar situações críticas”, diz Vanessa.

Além disso a  pesquisadora conta que, ao manifestar esses transtornos, os indivíduos podem apresentar déficit de discriminação ambiental, ou seja, ter dificuldade de compreender seu meio, seja no social, no familiar, no trabalho entre outros. “O indivíduo compreende menos, ou de forma errônea, as situações a sua volta”, explica a pesquisadora.

Ainda sobre os portadores de transtornos pós-traumáticos, a pesquisa revelou que essas pessoas têm um maior número de vivências traumáticas na infância de cunho geral – presenciaram desastres naturais e situações de violência, assassinatos, por exemplo, em geral de forma abrupta. “Interessante que essas pessoas ainda apresentaram dificuldades em reconhecer expressões faciais, principalmente as de surpresa”.

Nas pessoas com diagnósticos de transtornos de ansiedade generalizada, Vanessa verificou maior quantidade de traumas emocionais gerais –  como percepção de menos valia e, também, de traumas sexuais, em geral os mais invasivos. Quanto às expressões faciais, esse tipo de transtorno ansioso aumenta a capacidade de reconhecimento da emoção nojo. “Possivelmente essas pessoas viveram traumas precoces que se traduziram em ambientes inseguros para elas”, diz a pesquisadora.

Já os diagnosticados com transtorno de ansiedade social não apresentaram diferenças significativas quanto a presença de um determinado trauma emocional infantil ou ao reconhecimento de emoções faciais, apenas personalidade com “traços de neuroticismo”, ou seja pessoas com dificuldade em adaptar-se ao meio social e que podem sofrer mais que o normal com ansiedade, impulsividade, instabilidade emocional, baixa tolerância à frustração e ao enfrentar situações críticas.

A pesquisa

A pesquisadora acompanhou 120 pessoas com idades entre 26 e 42 anos – 30 saudáveis e 90 portadoras de transtorno ansioso – e investigou as  possíveis associações entre traumas emocionais precoces identificados, os traços de personalidade e o reconhecimento de expressões faciais de emoção em pessoas adultas com diagnósticos de ansiedade social, ansiedade generalizada e estresse pós-traumático.

Para o reconhecimento facial de emoções, a psicóloga utilizou a técnica chamada “Tarefa REFE”, atividade em que são apresentados filmes com imagens de atores desconhecidos e de ambos os sexos, expressando seis emoções básicas (alegria, nojo, tristeza, raiva, medo e surpresa). Os indivíduos tiveram que identificar cada uma das emoções.

Segundo a pesquisadora, o trabalho, além da especificidade de identificar tipos de traumas, contou com estatísticas mais refinadas para a análise conjunta das variáveis, o que interessa tanto para orientar práticas clínicas mais eficazes na redução do sofrimento, quanto para as práticas preventivas. No quesito prevenção, Vanessa acredita que as informações obtidas possam estimular estratégias específicas para “reduzir o impacto ou evitar tais fatores de risco, os quais a população em geral esteja exposta”.

Vanessa lembra que a ansiedade é uma emoção experimentada por qualquer ser humano em algum momento da vida; mas pode ser classificada como transtorno psiquiátrico quando desencadeia sofrimento e incapacita para a vida normal. O Brasil hoje é líder mundial do ranking de casos de ansiedade. Dados recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que os ansiosos brasileiros somam 9,3% da população do país.

O trabalho de mestrado Associações entre traumas emocionais precoces, traços de personalidade e reconhecimento de expressões faciais em indivíduos diagnosticados com transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade social e ansiedade generalizada, foi apresentado em junho deste ano, no programa de pós-graduação em Saúde Mental na FMRP, com orientação da professora Drª Flávia de Lima Osório.

Mais informações: fernandes.vanessa@live.com

Referência: Portal de Informações da USP Ribeirão Preto – Por:  Thainan Honorato - Foto: http://www.ruadireita.com/saude/info/traumas-de-infancia/

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