História

predio central

As mudanças sociais e a redemocratização, que ocorreram no Brasil na década de 1940, aliadas ao alívio e à euforia que marcaram o final da Segunda Guerra Mundial, determinaram que a sociedade civil se organizasse para conseguir melhor qualidade de vida. Isto incluía o acesso à Cultura e à Educação. Algumas cidades do interior pleiteavam, também, a interiorização do Ensino Superior, com os consequentes acesso de seus jovens habitantes ao exercício de profissões liberais e melhora da economia local, o que impulsionaria o progresso (1).

Em Ribeirão Preto, o movimento pró Faculdade de Medicina foi intenso, com a participação de vários segmentos da sociedade e do Centro Médico. O Dr. Paulo Gomes Romeo foi um dos líderes e, posteriormente, enquanto Presidente do Centro Médico, teve papel importante na instalação da FMRP. O Deputado Luiz Augusto Gomes de Matos foi o autor do Projeto de Lei apresentado à Assembléia Legislativa, aprovado em 1948 (234).

O Governo do Estado de São Paulo apoiava a ideia da interiorização do ensino superior, mas não havia unanimidade na Universidade de São Paulo (USP), em relação à Medicina. Apesar de existir na Faculdade de Medicina grande número de Livre-docentes capacitados a atuarem na nova Escola Médica, a ampliação poderia ocasionar perda da qualidade do ensino.  Mas os dirigentes eram favoráveis e, em 1947, foi criada Comissão, coordenada pelo Prof. Dr. Zeferino Vaz, para estudar a possibilidade de implantação da nova Escola, organizar o currículo e planejar a sua instalação (134). A aprovação final da estrutura curricular, pelo Conselho Universitário, ocorreu em setembro de 1951. Três meses depois o funcionamento da FMRP foi autorizado, pela lei Estadual 146, de 26 de dezembro de 1951. O Prof. Vaz foi indicado para ser o primeiro Diretor da FMRP.

Além das características pessoais de Zeferino Vaz – que era um homem empreendedor, visionário, sensível às necessidades da sociedade, (que começava a delinear o tipo de serviço de saúde que gostaria de receber) e estava determinado a criar uma Escola Médica de destaque – diversos fatores influenciaram a escolha do modelo didático-pedagógico e do Corpo Docente da FMRP:

– O modelo americano da época (Flexeneriano), que garantiria à FMRP características inovadoras, enfatizava a pesquisa, a tecnologia e a superespecialização, assim como a separação do ensino básico do clínico e o tempo integral (1);

– A Fundação Rockfeller, que seria a principal fonte de financiamento da nova Instituição recomendava, fortemente, que esse modelo fosse contemplado (2);

– A Residência Médica, no Brasil, estava sendo considerada e iniciavam-se discussões sobre o Curso de Pós-graduação “stricto sensu” (1).

Por outro lado:

– “mudanças de legislações (já existiam no Brasil os primeiros Institutos de Previdência); mudanças econômicas, e sociais, com a conseqüente modificação do sistema de saúde e valorização da prevenção” (1) ocorriam no Brasil, na América Latina e em outras regiões do mundo, e isso foi contemplado com a proposta da inclusão no projeto da FMRP de um Centro de Saúde-Escola.

Além disso:

–  a importância da Medicina Preventiva, a fusão de cátedras em Departamentos, a limitação do número de vagas e rigorosa seleção dos alunos constavam nas  proposições do Congresso Pan-Americano de Educação Médica de 1951 (2). Esta entidade, recomendava também, “o tempo integral para as disciplinas básicas e clínicas, criação de uma Escola de Enfermagem e a criação de um Hospital Escola”,  o que estava de acordo com o “modelo americano” e com  as exigências da Fundação Rockfeller (2).

O corpo docente inicial da FMRP foi composto por renomados professores europeus, sul americanos e brasileiros (12). E vale destacar que constavam no currículo inicial da FMRP disciplinas que não existiam em outras Escolas Médicas brasileiras da época, com a Psicologia Médica.

Na fase de instalação e nos primeiros anos a sede e alguns laboratórios da FMRP funcionaram em uma casa situada na Rua Visconde de Inhaúma, 757, Centro, e aulas foram ministradas no prédio da Faculdade de Farmácia e Odontologia. A Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto propiciou o treinamento clínico e cirúrgico.

Ainda nos anos 1950 ocorreram a mudança da FMRP para a sede da antiga Escola Agrícola, a disponibilização de moradias para docentes e funcionários (nos arredores do Prédio Central), e a criação e a implantação do Hospital das Clínicas. Com a finalização da construção de novo prédio, em 1978 e 1979 o HC mudou para o Campus. Na antiga sede foi instalada a Unidade de Emergência.

Em 02 de abril de 1963, sob a Presidência do Vice-Diretor, Prof. Dr. Mauro Pereira Barreto, foi instalada a Congregação da FMRP (ata histórica). Nos primeiros anos, quando necessário quorum específico, este era completado com docentes dão Faculdade de Farmácia e Odontologia.

Zeferino Vaz permaneceu na FMRP por 12 anos. Em  20 de março de 1964, a Congregação da FMRP despediu-se de seu criador  realizando  Sessão Solene para conceder-lhe o Título de “Professor Honoris Causa”, com a presença do Magnífico Reitor, de Diretores de outras Unidades da USP e de autoridades civis e eclesiásticas.

Ao longo das décadas, mudanças curriculares foram necessárias, decorrentes de: “avanços da ciência e da tecnologia para diagnóstico e tratamento e industrialização; mudanças de legislações; mudanças econômicas, políticas e sociais, com a consequente modificação do sistema de saúde e valorização maior da prevenção; surgimento de diferentes doenças; descoberta de novos medicamentos; e por demanda dos alunos e pela vontade de dirigentes de departamentos de ensino e de colegiados” (1).

Nesses 60 anos ocorreram a criação do Curso de Ciências Biológicas (década de 1960), a implantação da Residência Médica e da Pós-graduação stricto sensu, reestruturações departamentais, a organização do Museu Histórico(5), mudanças nos papéis do Professor de Ciências da Saúde, mudanças nas atividades meio (6), elaboração de Plano Diretor, criação de fundações, lançamentos de revistas científicas e a  instalação de novos cursos (Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Nutrição e Metabolismo, Fonoaudiologia, além de Informática Biomédica, compartilhado com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – FFCLRP).

A hierarquização do sistema de saúde, assim como das novas solicitações do “paciente-cidadão”, requereram mudanças, também no Hospital das Clínicas (destinado predominantemente aos níveis terciário e quaternário), na Unidade de Emergência e nas outras unidades de apoio, com significativa ampliação dos espaços extra-muros. A FMRP passou a atuar, também, em outras vertentes da extensão universitária.

Assim, a FMRP procura formar profissionais adequados às necessidades de saúde do Brasil; que os egressos de seus Programas de Residência (Médica e Multiprofissional) garantam excelente nível de atenção à saúde e que seus cursos de extensão universitária contribuam para a educação permanente de profissionais de áreas diversas. Forma Mestres, Doutores, Pesquisadores e Pós-doutores; desenvolve importantes pesquisas,  contribuindo para a evolução do conhecimento científico e, através de suas atividades culturais e extensionistas, cumpre seu compromisso social (4).

REFERÊNCIAS:

  1.  Rodrigues MLV – Inovações no Ensino Médico e outras mudanças: aspectos históricos e na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (editorial). Medicina Ribeirão Preto 2002;  35: 231-235.
  2.  Moraes MAS – A História da Faculdade.
  3.  Moreira AC – O Jubileu da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e a Universidade de São Paulo. Medicina Ribeirão Preto, 2002; 35: 237-240.
  4.  Maciel BC – Discurso proferido na Sessão Solene da Congregação, comemorativa aos 60 anos da FMRP – 21 de maio de 2012.
  5.  Coelho MAN, Hoffmann A – A Cultura na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Medicina Ribeirão Preto, 2002; 35: 367-370.
  6.  Furtado HEAL, Castro AF, Faria IGC, Bezerra RC R – 50 anos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Mudanças nas atividades meio. Medicina Ribeirão Preto, 2002; 35: 241-246.

 Outras fontes consultadas:

– Atas da Congregação da FMRP-USP.

– Processos administrativos da FMRP-USP.

Profa. Dra. Maria de Lourdes Veronese Rodrigues
Prof. Titular do Depto de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço
e Presidente da Comissão de Cultura e Extensão Universitária – FMRP-USP

Jornalista: Raquel Tsuji Iliano