Estudo da FMRP-USP aponta que dieta com restrição de proteínas reduziu glicemia de diabéticos

Depois de quatro semanas de dieta com menor quantidade de carne, voluntários tiveram redução de 61% nos níveis de glicose, sem perda de massa magra.

Com uma dieta comum à maior parte dos brasileiros – composta de arroz, feijão, saladas e carne, essa em quantidade menor, ou seja, com diminuição de proteínas -, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP conseguiram reduzir a glicemia de um grupo de voluntários portadores de Diabetes mellitus tipo 2. Participaram deste estudo controlado sete indivíduos, de cinco estados brasileiros, durante  quatro semanas, portadores de diabete tipo 2 há pelo menos nove anos, com dislipidemia – elevação do colesterol e/ou triglicérides, e hipertensão arterial.

 

Rafael Ferraz Bannitz e a professora Maria Cristina Foss-Freitas, durante apresentação do trabalho no Congresso da ADA nos Estados Unidos – Foto: Arquivo Pessoal

Após as quatro semanas, o grupo avaliado apresentou uma redução de 61% dos níveis de glicose em jejum e uma redução de 14% da hemoglobina glicada, marcadores que indicam o volume de açúcar no sangue. “O protocolo de restrição proteica a que o grupo de voluntários foi submetido, além de reduzir os níveis de glicose sanguínea, também reduziu em 32% os níveis de colesterol total e 33% os níveis de LDL, o colesterol ruim”, conta Rafael Ferraz Bannitz, um dos autores do estudo publicado em importante revista internacional da área.

Os resultados também mostraram uma redução de 4,5% do peso corporal, com diminuição de 11% da massa gorda e manutenção da massa magra. Além disso, todos os indivíduos apresentaram normalização da pressão arterial sistêmica, com uma queda de 23% na pressão sistólica e 44% na pressão diastólica.

Segundo o pesquisador, essa é a primeira vez que um grupo de pesquisa aplica “um protocolo de tratamento exclusivamente alimentar em seres humanos totalmente controlado”. O objetivo principal é definir os mecanismos de ação da restrição calórica e da dieta hipoproteica em seres humanos. A restrição calórica, diz Bannitz, tem se mostrado uma ótima intervenção no combate a doenças metabólicas em diferentes espécies, porém a restrição de proteínas na dieta em seres humanos é uma grande incógnita, principalmente em indivíduos que são portadores de diabete tipo 2.

Vias metabólicas

Via metabólica é uma série de reações químicas que acontece nas células para degradar os nutrientes, gerando energia para o organismo. Existe mais de uma maneira dessa quebra dos nutrientes ser feita, ou seja, mais de uma via metabólica possível. Diferentes “caminhos” bioquímicos utilizados produzem diferentes resultados.

Com esse estudo, os pesquisadores mostram que a dieta restrita em proteínas ativa a chamada via de GCN2. “A via de GCN2 é uma das principais vias metabólicas responsáveis por proporcionar benefícios à saúde em diversos modelos animais, mas ainda não havia sido demonstrada em seres humanos”, lembra Bannitz. Essa ativação pôde ser identificada avaliando-se o tecido adiposo subcutâneo dos pacientes pesquisados, que mostrou a expressão de genes associados à GCN2.

“Os achados sugerem que, de fato, a dieta restrita em proteína afeta a via GCN2 em humanos, possibilitando o controle glicêmico e lipidêmico”, afirma Bannitz.

O grupo de pesquisa liderado por Foss-Freitas estuda os mecanismos e intervenções capazes de melhorar o controle metabólico modulando o bom funcionamento do organismo frente aos danos decorrentes da obesidade, principalmente, de diabete tipo 2. Atualmente, o estudo foi estendido, aumentando o número de indivíduos tratados.

O estudo Protein-Restricted Diet Is Effective in Decreasing Glycemia, HbA1c, and Cholesterol in Type 2 Diabetic Subjects by the Activation of the GCN2 Pathway foi apresentado no Congresso da Associação Americana de Diabetes (ADA), nos Estados Unidos, em junho, e publicado na revista Diabetes, ligada à ADA. É parte do doutorado de Bannitz, orientado pela professora Maria Cristina Foss-Freitas e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Também participaram do estudo Rebeca Beraldo, Patrícia Gomes e Milton Cesar Foss, todos da FMRP.

Mais informações: e-mail rafael_ferraz@live.com

Referência: Jornal da USP – Por Rose Talamore