Em entrevista, Profª Silvana Quintana esclarece dúvidas sobre o HPV

Silvana

Jornal Eletrônico: O que é HPV?  

Profª Silvana Quintana: O Papiloma vírus humano (HPV), como o nome diz, é um vírus que pode provocar infecção em seres humanos e está associado ao desenvolvimento de neoplasias malignas como o câncer do colo do útero, vagina, vulva, pênis e a outros tumores malignos como câncer de laringe.

Jornal Eletrônico: Qual a principal forma de transmissão do HPV?

Profª Silvana Quintana: A principal forma de transmissão deste vírus é a relação sexual, que responde por 98% dos casos. E quando se fala em relação sexual deve-se pensar em contato sexual nos seus diferentes contextos: manipulação genital, contato orogenital, sexo vaginal e anal. Quanto aos 2% restantes, discute-se o papel da transmissão por meio do compartilhamento de roupas íntimas, materiais contaminados, etc.

Jornal Eletrônico: Os HPV são facilmente contraídos?

Profª Silvana Quintana: Sim, pelo fato de serem transmitidos na relação sexual e neste contato sempre ocorrem microtraumas nas mucosas, facilitando a transmissão.

Jornal Eletrônico: Em que locais do corpo são encontrados os HPV?

Profª Silvana Quintana: Qualquer local da pele e mucosa, especialmente do trato genital feminino: Colo do útero, vagina, vulva, região anal. Mas, também pode estar na cavidade oral, laringe, etc.

Jornal Eletrônico: Qual é a apresentação clínica do paciente com HPV?

Profª Silvana Quintana: Até este momento mais de 180 tipos de HPV já foram descobertos, mas aproximadamente 45 deles causam infecções genitais. Eles são numerados e alguns deles podem causar lesões pré-câncer e câncer e são chamados oncogênicos. Os principais HPVs associados ao câncer de colo do útero são o 16 e 18. Outros HPVs podem causar lesões benignas como as verrugas genitais ou condiloma e a papilomatose de laringe e são ditos não oncogênicos, cujos principais representantes são os tipos 6 e 11. Portanto, as pacientes infectadas pelo HPV podem ser assintomáticas, isto é, não apresentam qualquer tipo de lesão, podem apresentar alterações no exame de prevenção do câncer do colo do útero (Papanicolaou) ou podem apresentar verrugas (condilomas). É importante lembrar que a infecção pelos HPVs de alto risco está associada não somente ao câncer de colo de útero, mas também aos da região genital feminina (vulva e vagina), ânus, pênis e orofaringe, principalmente. Portanto, a apresentação clínica da infecção pelo HPV vai depender do tipo de HPV e também do sistema de defesas da própria paciente.

Jornal Eletrônico: Quem pode sofrer com essa doença? Existe sexo e/ou idade específica?

Profª Silvana Quintana: Todas as pessoas sexualmente ativas podem se contaminar com o HPV, tanto homens quanto mulheres. O maior número de casos é diagnosticado em adolescentes e adultos jovens. Também diagnosticamos a infecção pelo HPV em crianças, mas nesta situação é obrigatório que os profissionais de saúde pesquisem abuso sexual.

Jornal Eletrônico: É possível evitar?

Profª Silvana Quintana: As orientações para prevenção são: postergar o início da vida sexual (quanto mais cedo iniciar a atividade sexual, maior será o número de parceiros sexuais e maior risco de aquisição do HPV), reduzir o número de parceiros, usar preservativo e VACINAR.

Jornal Eletrônico: Como funciona a vacina contra o HPV?

Profª Silvana Quintana: Até o momento existem duas vacinas disponíveis no mercado: a Vacina Bivalente contra os HPV 16 e 18 e a Quadrivalente contra os HPV 6, 11, 16 e 18. Ambas são vacinas profiláticas, isto é, tem seu melhor desempenho, que consiste em evitar a infecção, quando administradas antes da exposição ao vírus, ou melhor, antes do inicio da vida sexual. A Vacina do HPV contém partículas semelhantes ao vírus, ou seja, a vacina contém apenas o envoltório do vírus sem o material genético do vírus (DNA). Ao injetar estas partículas nos seres humanos (vacina), o organismo passará a produzir anticorpos contra o HPV. Quando a paciente entrar em contato com o vírus verdadeiro, ela já tem os anticorpos que neutralizarão o HPV impedindo a infecção. Portanto, a vacina NÃO é capaz de causar a infecção, pois não contém o Material genético do HPV.

Jornal Eletrônico: Existem contraindicações e efeitos colaterais?

Profª Silvana Quintana: Quando uma nova medicação ou vacina é aprovada para ser utilizada em seres humanos, previamente foram realizadas várias avaliações, que os pesquisadores chamam de fases do estudo clínico. A cada fase são realizados inúmeros testes para avaliar a segurança, a toxicidade, a dose, a ocorrência de eventos adversos e a eficácia. Embora a comercialização da vacina do HPV seja recente, os estudos clínicos dessa vacina têm aproximadamente 20 anos, quando foram exaustivamente avaliadas a eficácia e a segurança em homens e mulheres, demonstrando que são extremamente seguras e eficazes (Drug Saf 2013;36:393-412). No Brasil, já foram realizadas mais de 680 mil doses da vacina quadrivalente anti-HPV, na rede privada ou pública, uma vez que várias cidades brasileiras e o Distrito Federal já implementaram a vacinação pública contra o HPV, sem relato de efeito adverso grave em nenhum paciente. Portanto, podemos seguramente afirmar que ambas as vacinas são muito seguras e os principais efeitos colaterais são a dor no local da injeção.

Jornal Eletrônico: Quais os riscos da infecção por HPV em mulheres grávidas?

Profª Silvana Quintana: Quando a gestante apresenta infecção pelo HPV, especialmente as verrugas que são causadas pelos HPV não oncogênicos 6 e 11, poderá ocorrer a transmissão vertical (da mãe para o filho) deste vírus. Caso ocorra a transmissão a criança apresentara a pailomatose recorrente de laringe, que consiste no condiloma da laringe. Felizmente a transmissão vertical é um evento raro.

Jornal Eletrônico: Ao perceber os sintomas, o que fazer?

Profª Silvana Quintana: Ao apresentar verrugas genitais a paciente deve procurar o serviço de saúde para confirmar o resultado e receber orientações e tratamento, quando necessário. As demais manifestações que consistem no resultado do exame de prevenção do câncer do colo do útero alterado serão conduzidos pela equipe de saúde.

Jornal Eletrônico: Existe cura?

Profª Silvana Quintana: A infecção pelo HPV é TRANSITÓRIA para 90% das pacientes, isto é, a grande maioria das pacientes entrará em contato com o vírus e em um tempo variável de até 2 anos se livrará do HPV muitas vezes sem nem saber que teve o vírus. Portanto, 90% das pacientes que adquirem o HPV vão ficar livres do HPV (curadas) ao final de 2 anos.

Jornal Eletrônico: Como é realizado o tratamento?

Profª Silvana Quintana: O Tratamento dependerá do tipo de lesão que a paciente apresenta. As verrugas genitais/condiloma podem se desenvolver em qualquer parte do trato genital feminino. Dependendo da localização (colo do útero, vagina, vulva ou ânus), da extensão, do volume das lesões a equipe de saúde fará a programação do tratamento. Pode-se usar desde cremes, ácidos até a destruição com LASER CO2. Quando se tratar de lesões pré-câncer o tratamento será retirar a área do colo do útero que está acometida. Chamamos este procedimento de conização.

Jornal Eletrônico: É necessário que o parceiro sexual também faça os exames preventivos?

Profª Silvana Quintana: Embora não exista um consenso sobre a abordagem do parceiro, a rotina no nosso serviço orienta que o parceiro deva ser encaminhado para avaliação caso o parceiro apresente verrugas na região genital ou quando a parceira apresenta lesões pré-neoplásicas do colo do útero

Jornal Eletrônico: Quais são os tipos de complicações que podem surgir em decorrência da doença?

Profª Silvana Quintana: O principal risco é a infecção persistente pelo HPV de alto risco que podem causar as lesões pré-câncer. Caso não sejam diagnosticadas, podem evoluir para o câncer e causar a morte da paciente.

Jornal Eletrônico: Qual é o risco de desenvolver câncer do colo do útero?

Profª Silvana Quintana: A infecção pelo HPV é TRANSITÓRIA para 90% das pacientes, isto é, a grande maioria das pacientes entrará em contato com o vírus e em um tempo variável de até 2 anos se livrará do HPV muitas vezes sem nem saber que teve o vírus. Nas pacientes que apresentarem infeccão persistente pelo HPV oncogênico, especialmente o HPV 16, o risco de câncer está aumentado. Entretanto, o tempo para o aparecimento do câncer de colo de útero a partir da infecção HPV é muito longo (em torno de 10 a 15 anos), no entanto esta evolução pode ser muito mais rápida em algumas mulheres, dependendo exclusivamente do sistema imune destas. No Brasil e no mundo, cerca de 1% dos cânceres de colo de útero são diagnosticados em mulheres com menos de 25 anos de idade (1% de 18.000, representa 180 casos/ano para o Brasil).

Jornal Eletrônico: Quais estudos estão sendo desenvolvidos no âmbito da FMRP-USP e que tipo de contribuição eles trazem para melhorar a qualidade de vida dos pacientes acometidos pelo HPV?

Profª Silvana Quintana: No Departamento de Ginecologia e Obstetrícia várias pesquisas são realizadas avaliando a infecção pelo HPV e a saúde da mulher: trabalhamos com as vacinas para o HPV, avaliamos a transmissão vertical deste vírus e a prevalência da infecção em gestantes entre outros. Esses estudos permitiram elaborar protocolos assistencias de elevada qualidade para a atenção à saúde da mulher com esta infecção.

A Profª Drª Silvana Maria Quintana é Docente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP-USP, responsável pelo Ambulatório de Moléstias Infectocontagiosas do HCFMRP-USP (AMIG)

Referência: Jornal Eletrônico do Complexo Acadêmico de Saúde FMRP – HCFMRP – FAEPA – Por: Célia Bíscaro

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