Em entrevista, Prof. Edgard Engel esclarece dúvidas sobre Tumor Ósseo

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Jornal Eletrônico: O que é tumor ósseo?

Prof. Edgard Engel: Os tumores ósseos podem ser benignos ou malignos. Os benignos são, na maioria, achados acidentais de exame e não precisam de tratamento específico. Alguns têm a capacidade de destruir o osso progressivamente e, pelo fato de poderem provocar fraturas e dor, precisam de tratamento.

Os malignos são raros. Apenas 1% dos cânceres é ósseo e eles comprometem, na maioria das vezes, crianças e adultos jovens.

Jornal Eletrônico: Quais são os tipos de tumores ósseos?

Prof. Edgard Engel: Existe uma quantidade enorme de tumores ósseos benignos e malignos. Os malignos mais comuns são o osteossarcoma e o tumor de Ewing. Ambos acometem preferencialmente crianças e adultos jovens.

Jornal Eletrônico: Quais são as causas dos tumores ósseos?

Prof. Edgard Engel: Não existem causas definidas para os tumores ósseos. É comum os pacientes relacionarem o aparecimento com traumas anteriores. No entanto, não há nenhum indício de que exista alguma relação entre o trauma e o aparecimento do tumor.

Pacientes portadores de algumas síndromes ou doença de Paget, ou que foram submetidas à radioterapia têm maior risco de desenvolver um câncer ósseo, mas ainda não se sabe a causa específica. 

Jornal Eletrônico: Quem pode sofrer com essa doença? Existe sexo e/ou idade específica?

Prof. Edgard Engel: Todas as idades podem ser acometidas, pois existem vários tipos de tumores que acometem os ossos. No entanto, a idade entre 5 e 25 anos é mais frequentemente acometida. Alguns tumores têm uma predileção por sexo, mas, no geral, ambos são acometidos igualmente.

Jornal Eletrônico: É possível evitar?

Prof. Edgard Engel: Não existe forma de prevenir o câncer ósseo, nem existem métodos de avaliação populacional como no câncer de mama e de próstata. Além disso, pela raridade, é comum o médico não ter facilidade para fazer o diagnóstico. Mas é muito importante que os médicos em geral e, em especial, os ortopedistas, tenham sempre em mente a suspeita de tumor ósseo. Dores ósseas, aumento de volume nos membros e fraturas devem ser radiografados e as radiografias analisadas com atenção. Em caso de dúvida, o médico deve encaminhar o paciente com rapidez para um centro de Oncologia Ortopédica.

No HCRP, além de recebermos os casos para essa triagem em, no máximo, uma semana, oferecemos o serviço de avaliação de radiografias e outros exames de imagem pelo e-mail: aono@gmail.com.

Jornal Eletrônico: Qual é a apresentação clínica do paciente com tumor ósseo?

Prof. Edgard Engel: Os principais sinais sugestivos de tumor ósseo são: dor óssea, aumento de volume ou massa palpável e fratura que, quando está associada a um tumor ou outra causa de enfraquecimento ósseo, chamamos de fratura patológica. Nesses casos deve ser feita uma radiografia para avaliar se o osso apresenta alterações.

Jornal Eletrônico: Ao perceber os sintomas, o que fazer?

Prof. Edgard Engel: Se a radiografia apresenta alterações, o médico deve encaminhar o paciente ao centro de Oncologia Ortopédica, que tem maior capacidade de realizar os exames rapidamente e definir a conduta em menor tempo. Já tivemos vários casos em que os exames foram solicitados na rotina e o diagnóstico foi retardado por meses. Nesses casos, a doença pode progredir e a chance de cura diminuir.

Jornal Eletrônico: Existe cura?

Prof. Edgard Engel: Hoje em dia, o índice de cura dos tumores melhorou muito em relação ao que havia há 20 – 30 anos. Os quimioterápicos novos e a melhora dos exames de imagem transformaram uma sobrevida de 20% em 60%. Esses dados valem para o Osteossarcoma e o Tumor de Ewing que são mais comuns e agressivos.

Como existe uma grande variedade de tumores malignos ósseos não podemos dar um índice de cura geral, pois a variação é muito grande e depende de vários fatores como presença de metástases e a agressividade do tumor detectada na biopsia.

Jornal Eletrônico: Como é realizado o tratamento?

Prof. Edgard Engel: O Tratamento é feito com a associação de quimioterapia e cirurgia. A quimioterapia dura aproximadamente 8 meses, e a cirurgia é feita no meio desse tratamento.

O principal objetivo da cirurgia é a ressecção completa do tumor com uma faixa de tecido normal, que chamamos de margem de segurança. Por isso, as ressecções costumam ser bastante grandes e exigem reconstruções extensas. Essas reconstruções podem ser realizadas com endopróteses ou com ossos do próprio paciente ou de bancos de osso.

Jornal Eletrônico: Quais são os tipos de complicações que podem surgir durante o tratamento?

Prof. Edgard Engel: A pior complicação é a disseminação do tumor. Mesmo com todo tratamento realizado corretamente, isso pode acontecer e pode comprometer a vida do paciente. As complicações locais das cirurgias também podem acontecer, pois como as cirurgias são grandes e demoradas o risco de complicações é maior.

Quanto mais estruturas comprometidas, maior a complexidade da ressecção e da reconstrução. Isso também pode causar perdas de função, mas que não podem ser consideradas complicações, pois já foram planejadas e não podiam ser evitadas.

De uma forma geral, temos tido bons resultados com as cirurgias. Nossas taxas de recidiva local são baixas e o retorno à função é bastante razoável. Mas precisamos lembrar que as reconstruções biológicas, ou seja, aquelas em que a substituição do tumor é com osso, uma vez que ocorre a revitalização e a consolidação, o paciente volta a ter um membro normal. Mesmo que isso demore até poucos anos.

Já as reconstruções com próteses, o desgaste natural do material sempre será acompanhado pela necessidade de trocas destes implantes. Isso é problemático, pois as trocas são sempre por próteses maiores e o risco de complicações sempre aumenta.

 Jornal Eletrônico: Quando a amputação de um membro é necessária?

Prof. Edgard Engel: A amputação, num passado recente, era a única alternativa do Ortopedista. Hoje, devido às melhoras da quimioterapia e dos exames de imagem, a relação de amputação e preservação do membro se inverteu. Nossa taxa de amputação está por volta de 10%. A quimioterapia feita antes da cirurgia diminui o volume do tumor e cria uma camada de tecido normal entre o tumor e as estruturas nobres como nervos e vasos. Com isso, fica mais fácil ressecar o tumor sem comprometer a irrigação, a sensibilidade e a função dos segmentos preservados.

Hoje, a indicação de amputação está reservada àqueles tumores muito grandes e que comprometem vasos e nervos, geralmente de pacientes que demoraram muito a procurar ajuda médica.

Jornal Eletrônico: Tumores ósseos malignos podem entrar na corrente sanguínea ou no sistema linfático e se espalhar para outras partes do corpo?

Prof. Edgard Engel: Pela corrente sanguínea sim, pelo sistema linfático, praticamente não. O órgão mais afetado por essa disseminação é o pulmão. Mesmo quando há disseminação há chance de cura, mas ela é menor.

Jornal Eletrônico: O número de recidiva de tumores ósseos malignos é alto?

Prof. Edgard Engel: Isso varia muito de tumor para tumor. O condrossarcoma grau 1, por exemplo, tem uma taxa de recidiva praticamente zero. Já o grau 3 pode ter chance de recidiva de quase 40%, dependendo do tipo do tecido de que é formado.

Jornal Eletrônico: Quais estudos estão sendo desenvolvidos no âmbito da FMRP-USP e que tipo de contribuição eles trazem para melhorar a qualidade de vida dos pacientes acometidos pelo tumor ósseo?

Prof. Edgard Engel: Nós estamos muito envolvidos com o risco de fraturas de tumores benignos. As alternativas de tratamento são o preenchimento com cimento ou com enxerto. O cimento pode evoluir com complicações como artrose e o enxerto disponível geralmente é insuficiente devido o tamanho dos defeitos ósseos criados. Nós desenvolvemos um cimento esponjoso, que tem a possibilidade de ser invadido por osso normal melhorando a durabilidade e a estrutura do osso como um todo. Outra forma de tratamento desses defeitos é com um tipo diferente de fixação com placas e parafusos que tem a capacidade de evitar fraturas, mas, ao mesmo tempo, permite a formação de osso normal no interior do defeito. As duas alternativas devem melhorar o tratamento dos tumores benignos.

Outra pesquisa que estamos realizando é em relação à fixação dos ligamentos e dos músculos à prótese. Percebemos que esse é um fator crítico na função após o implante dessas endopróteses grandes. Nesse caso estamos testando a função dos pacientes após diferentes tipos de reconstrução. Aqui, também esperamos poder melhorar a função e, consequentemente, a qualidade de vida destes pacientes.

O Prof. Dr. Edgard Eduard Engel é Docente do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor da FMRP-USP, Responsável pelo Ambulatório de Oncologia Ortopédica do HCFMRP-USP.

Referência: Jornal Eletrônico do Complexo Acadêmico de Saúde FMRP – HCFMRP – FAEPA – Por: Célia Bíscaro

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