Artigo do Prof. Crippa ressalta que o debate sobre canabidiol deve estar respaldado em dados científicos

GEDSC DIGITAL CAMERA

Qualquer um se lembra do que estava fazendo no dia 11 de setembro de 2001, por ocasião do ataque terrorista ao complexo do World Trade Center na cidade de Nova York. O que é menos conhecido é que, numa manhã de agosto de 1974, o jovem equilibrista francês Philippe Petit cruzou sem autorização os 43 metros que separavam as Torres Gêmeas. Com uma vara de oito metros de comprimento, Petit atravessou o espaço entre os dois edifícios oito vezes, ao longo de 45 minutos – sem nenhum cabo de segurança.

Olhando esses dois eventos, alguém poderia afirmar que ficar dentro de um escritório é algo perigoso, mas atravessar um prédio a mais de 400 metros do solo é extremamente seguro. Essa observação obviamente não é correta. Assim como seria equivocado afirmar que a maconha é segura pelo fato de ter usado a droga previamente e não ter tido complicações. Igualmente, o argumento de que uma simples tragada levará à dependência da maconha equivale a dizer que beber uma taça de vinho levará ao alcoolismo. Por isso, todo debate a respeito da legalização da maconha deveria necessariamente estar respaldado em dados científicos empíricos baseados em experimentos clínicos e em estudos epidemiológicos.

Maconha é o nome popular da plantaCannabis sativa, que possui centenas de componentes, dos quais aproximadamente 80 são denominados “canabinoides”, por atuarem nos receptores cerebrais com esse mesmo nome. Nos anos 1960, as estruturas químicas dos principais canabinoides foram descritas pelo professor Raphael Mechoulam, de Israel, incluindo o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), o componente da planta responsável pelos efeitos psicoativos da droga, como alterações na percepção, orientação e controle motor.

Entretanto, vários outros canabinoides conhecidos, muitos deles com potencial terapêutico, não apresentam esses efeitos. Um exemplo é o canabidiol (CBD), um canabinoide que possui diversos efeitos opostos aos do THC, como efeito ansiolítico e antipsicótico. Diferentemente do THC, o uso do CBD isoladamente não apresenta os efeitos típicos do uso da maconha. Nosso grupo e outros grupos brasileiros estão na vanguarda nas pesquisas sobre o potencial terapêutico dessa substância. Conduzimos pesquisas do CBD na doença de Parkinson, esquizofrenia, ansiedade, distúrbios do sono e dependência de drogas, entre outras condições.

Já na década de 1970, em estudos colaborativos, Mechoulam e o professor Elizaldo Carlini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), observaram em animais e em humanos os efeitos anticonvulsivantes do CBD. Entre novas evidências, o caso da menina com quadro de epilepsia refratária decorrente de rara doença genética, que recentemente ganhou notoriedade na mídia por ter melhorado com o uso do CBD, reforçam essas observações pioneiras.

Dessa forma, é importante ficar claro que os canabinoides são compostos presentes na maconha, mas os dois não são equivalentes. Um medicamento que combina CBD e THC já está disponível para tratamento de esclerose múltipla em países como Canadá, Espanha e Reino Unido. Entretanto, é de se lamentar que, por desinformação ou má-fé, o efeito benéfico dos canabinoides seja usado como justificativa para a legalização da maconha para fins recreativos.

Sabe-se que a maconha é a droga ilícita mais utilizada no mundo e seu consumo pode levar algumas pessoas a desenvolver sintomas psicóticos transitórios, como alucinações, delírios e alterações cognitivas. Cada vez mais estudos controlados sugerem que o uso recreativo crônico, dependendo da dose, quantidade e precocidade do início, pode produzir alterações cognitivas permanentes e facilitar o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos em usuários vulneráveis. Estudos epidemiológicos prospectivos de longo prazo realizados em alguns países sugerem uma associação entre uso crônico de maconha e maior risco para o desenvolvimento de esquizofrenia. Atualmente, a síndrome de abstinência da maconha é uma condição reconhecida e alguns usuários podem vir a desenvolver dependência, cujos tratamentos disponíveis demonstraram eficácia limitada.

Em colaboração com grupo do King’s College, de Londres, publicamos estudos mostrando as áreas cerebrais onde o THC e o CBD atuam individualmente. Mais recentemente, revisões da literatura apontam que o uso crônico e recorrente de maconha pode levar a alterações no funcionamento e na estrutura cerebral – particularmente no cérebro em desenvolvimento, ou seja, entre jovens e adolescentes. Um estudo publicado na semana passada sugere que essas alterações ocorrem mesmo em usuários ocasionais, achado que ainda necessita ser reproduzido. Complicações clínicas como câncer, problemas cardíacos, respiratórios e imunológicos também foram associados ao uso da maconha inalada.

Nesse cenário, em reunião científica no mês passado na qual proferi conferência a convite da presidência do Uruguai, não foram postos em debate alguns aspectos cruciais que seriam necessários, dada a recente legalização da droga naquele país. Faltou discutir como será oferecida à população informação dos conhecidos problemas do consumo, incluindo aspectos centrais como o uso e direção e de que modo se dará o tratamento para aqueles que desenvolverem dependência e suas complicações.

Os compostos canabinoides têm demonstrado incrível potencial terapêutico para diversas doenças e acredito que poderão ajudar milhões de pessoas no mundo todo, inclusive no Brasil. A ampliação dos ensaios clínicos avaliando segurança, faixa de dose e extensão de eficácia é essencial. A consequente regulamentação do uso dos canabinoides poderá levar a importante redução de sofrimento e melhor qualidade de vida a portadores de diversas doenças e transtornos. Por outro lado, o debate sobre a legalização da maconha para fins recreativos deveria ocorrer após alguns aspectos serem garantidos: primeiro, a sociedade ser informada de modo claro, sem alarmismo, do atual conhecimento científico dos riscos do uso da maconha; segundo, termos certeza de que todos os usuários poderão ter acesso a tratamento adequado no caso de complicações. Isso tudo desprovido do viés político ou ideológico, que só aumenta a confusão e posterga decisões concretas. Caso contrário, continuaremos na corda bamba da desinformação, e sem nenhum cabo de segurança.

O Prof. Dr. José Alexandre S. Crippa é Professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, membro da International Cannabinoid Research Society

Referência: Jornal “O Estado de São Paulo” - 26 de abril de 2014 | 16h 16 – Por: José Alexandre S. Crippa

Home      Voltar
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP

Av. Bandeirantes, 3900 - Monte Alegre - CEP: 14049-900 Ribeirão Preto/SP.

acesse nossas comunidades logo_face  logo_tw  stoa-logo-white AlumniUSPTV_Complexo0 

Desenvolvido por Xpirit